Category Archives: Educação

Hipocrisia ou ignorância?

por MANUEL MARIA CARRILHO

Diário de Notícias 6-6-2013

A evidência mais forte que resulta do encontro promovido por Mário Soares na semana passada, sob o lema “libertar Portugal da austeridade”, foi que a indignação contra a governação actual alastra, a urgência de uma ruptura se impõe em cada vez mais sectores da sociedade portuguesa, mas também… que o projecto continua a faltar.

O que falta é uma visão do futuro assente não só numa compreensão do passado que não iluda os erros cometidos, mas também numa perspectiva do presente à altura de compreender e de lidar com a sua extraordinária complexidade e, ainda, numa estratégia capaz de propor e debater uma via concreta, nacional e europeia, de saída da crise.

O que falta é uma visão do futuro que assuma a tripla tensão que atravessa hoje o mundo: em primeiro lugar, entre o Ocidente e os países emergentes, em particular a China. Depois, entre o Norte e o Sul da Europa, com problemas, expectativas e valores que acentuam a intensidade das suas múltiplas divergências. Por fim, entre as gerações, colocadas perante um choque demográfico brutal, nomeadamente devido ao generalizado envelhecimento das sociedades contemporâneas.

O que falta, é uma visão do futuro que integre as várias faces da globalização, das mais virtuosas às mais perversas, ou seja, da enorme diminuição da pobreza que ela possibilitou ao gigantesco aumento das desigualdades que ela tem provocado. Que compreenda que o socialismo democrático enfrenta hoje, ao nível nacional, um conjunto de impasses que só será possível superar através de um novo tipo de solidariedade europeia e internacionalista. Que não se resigne ao atual empobrecimento minimalista – mais ou menos formal, mais ou menos mediático – da democracia. Ou melhor, que arrisque pensar a política para lá das formas actuais da democracia. É tudo isto que falta – o que ajuda a compreender o que nos últimos dias se disse e escreveu a propósito do balanço, entretanto apresentado, da aplicação dos fundos europeus em Portugal desde 1986. Este balanço resultou de uma encomenda da Fundação F. M. dos Santos a Augusto Mateus, e pareceu escandalizar e surpreender toda a gente. Mas na verdade ele não trouxe nada, realmente nada, de substancialmente novo.

Basta ler o que já se afirmava em 1995, no “programa de governo do PS e da Nova Maioria”: “Recebemos por dia mais de dois milhões de contos de fundos comunitários, o que permitiu um desafogo financeiro que só conheceu paralelo no ciclo da pimenta da Índia e do ouro do Brasil. (…) Beneficiando de uma conjuntura externa extremamente favorável, de importantes fluxos de investimento estrangeiro e de transferências comunitárias, criou-se a ilusão de uma falsa prosperidade e de uma aparente “recuperação” do atraso da economia portuguesa face às economias europeias.” Isto foi escrito, sublinho, há dezoito anos!

O estudo veio assim confirmar, não só o que se sabia, mas também como às vezes é difícil acreditar no que se sabe e agir em conformidade. Por isso, a surpresa só pode traduzir hipocrisia ou ignorância – e esta é realmente grande, houve mesmo quem chegasse ao ponto de afirmar que nem sequer sabia que havia contrapartidas nacionais dos dinheiros europeus!

Na verdade, tudo o que agora se disse foi dito e escrito vezes sem conta nos últimos dez, quinze anos. O que aconteceu foi que todos – sociedade civil, políticos, consultores económicos e financeiros, etc. – convergiram num pantanoso pacto que – na ausência de um verdadeiro projeto nacional e de uma estratégia consistente para o País – converteu os fundos europeus numa espécie de mesada que garantiria o prolongamento da nossa reforma pós-imperial…

Como escrevi há tempos, e por diversas vezes, sem reflexão estratégica, com os torrenciais fundos de milhões de euros por dia, ganhou evidentemente o voluntarismo tático, que rapidamente se entregou à orgia do betão, e que teve no cavaquismo a sua década ilusoriamente triunfante. Esqueceu-se então, de vez, o interior, os recursos naturais, o mar, a ferrovia. E esqueceu-se, mais uma vez, a massa cinzenta, a escola, a formação, a investigação, a cultura, a criatividade, a exportação, o mundo. Ganharam os lobbies, a preguiça, a corrupção e o chico-espertismo.

Mas construíram-se freneticamente casas, piscinas, rotundas, pavilhões de todo o género, e imensas autoestradas. Aqui, até batemos recordes europeus e mundiais em construção de quilómetro por habitante ou por percentagem no PIB. Autoestradas que, para lá da realização mais emblemática do regime, se tornaram na verdadeira metáfora do acesso à nossa tão proclamada como vazia modernidade.

E a ilusão europeia manteve-se até ao final da década passada. Só então, com os abalos da crise do euro, e com o impacto das suas consequências, é que se começou a perceber as oportunidades que entretanto se tinham perdido, e os meios que se tinham desperdiçado.

E não adianta agora fingir que não se sabia. Seja por hipocrisia ou ignorância, isso só serve talvez para se tentar recuperar uma inocência que permita que tudo, no futuro, continue rigorosamente na mesma. É isso que é de temer, quando se olha para os tão reclamados novos fundos europeus (quase 28 mil milhões de euros) para o período 2014/2020, e não se conhece ainda um único projecto de envergadura nacional…

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Primavera Árabe…?

Primavera Árabe ou um novo e longo inverno que se avizinha?

Adolescente de 16 anos, cristão copta, foi condenado a três anos de prisão por ter colocado este cartoon na sua página do facebook.

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Encyclopedia of Life, EOL

«Enciclopédia da Vida» quer ser maior catálogo de espécies

Sítio ‘online’ reúne até agora 700 mil páginas de informação

Quatro anos após ter começado, a «Enciclopédia da Vida» («Encyclopedia of Life», EOL) apresenta hoje uma nova e actualizada versão. Esta ambiciosa webpage, que funciona como uma base de dados de espécies, é feita através da colaboração em rede.

Apresenta-se agora com um novo design e características que tornam a sua utilização mais simplificada e com a possibilidade de personalização e interacção.

Leia tudo na Ciência Hoje 

 

 

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Estudantes universitárias espanholas super progressistas!

No dia 10 de Março um grupo de meia centena de estudantes universitárias invadiu a capela da Universidade Complutense de Madrid, onde se celebrava missa.

No altar as “activistas” desnudaram-se da cintura para cima e mostraram palavras de ordem escritas no corpo: “bissexual”, “puta”, “poder ao clitóris”. Cantaram cânticos blasfemos e traziam consigo imagens do Papa Bento XVI com uma cruz suástica.

Ler tudo:  Poder do clítoris ou a cegueira do vamos a eles?

Gente esclarecida e progressista é outra coisa…

ou a ignorância no seu melhor!

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Escola Pública em Portugal em causa?

A Grande Evasão

‘Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida. Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros. E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar. Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos.

‘Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável ‘pastiche’ de Woody Allen ‘Para acabar de vez com o ensino’, a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.

Os professores falam de ‘desmotivação’, de ‘frustração’, de ‘saturação’, de ‘desconsideração cada vez maior relativamente à profissão’, de ‘se sentirem a mais’ em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da ‘escola de sucesso’, do ‘passa agora de ano e paga depois’, dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?’

Manuel António Pina

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Uma betinha com tiques de esquerda bem!

Escola caviar

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

0:00 Sexta feira, 24 de Setembro de 2010

 

Acompanhar a actual ministra da Educação é o mesmo que entrar numa montanha russa emocional. Isabel Alçada consegue provocar risadas intermináveis e iras homéricas. Esta terça-feira, por exemplo, foi mesmo o ‘carrossel Alçada’. Ao almoço, engasguei-me a rir enquanto ouvia a nossa ministra numa cerimónia engomadinha: o tom afectado que Isabel Alçada colocava na palavra “carráiras” era delirante. Entre as gargalhadas, comecei a pensar em algumas perguntas ululantes: então ninguém faz uma rábula com esta ministra? Ou será que o tom afectado só tem graça quando o alvo da paródia é uma filha de um capitalista anafado, uma beata católica ou uma simples senhora da ‘direita social’? Se Alçada fosse uma ministra do CDS, já teríamos por aí um pagode com as “carráiras”?

Ao jantar, a risada deu lugar ao ranger de dentes. Uma amiga mostrou-me um vídeo onde podemos ver a dr.ª Alçada a revelar um enjoativo paternalismo em relação aos alunos do ensino público e, pior, em relação aos pais e professores. Se colocassem um crucifixo atrás da ministra, aquele vídeo seria um peça vintage do Estado Novo. Enquanto consumia a minha neura, comecei a imaginar outro vídeo. Nesse vídeo redentor, alguém tinha a coragem de perguntar o seguinte à senhora ministra: caríssima, onde é que colocou os seus filhos e/ou netos a estudar? Na escola pública que tanto defende ou no Liceu Francês? E, depois, esta pergunta seria estendida ao primeiro-ministro: V. Exa. tem os seus filhos na idílica escola pública ou num pérfido colégio privado?

Meus amigos, o problema, obviamente, não está na colocação das crianças e dos adolescentes nos liceus franceses desta vida. O problema está, isso sim, na hipocrisia da esquerda caviar. De manhã, os nossos progressistas metem os seus filhotes no colégio privado (ou naqueles liceus públicos que, misteriosamente, estão sempre nas mãos da “gente de bem”), e, depois, à tarde, defendem a escola pública e cantam loas ao eduquês. Pior: estes progressistas-de-limusina atacam aqueles que querem dar aos mais pobres a possibilidade de colocaram os seus filhos nos colégios privados (ou naqueles liceus públicos que, não sei porquê, são sempre monopolizados pelos bem-nascidos). Na retórica, esta esquerda continua a defender o ensino ultracentralizado e dominado pelo facilitismo, mas, na prática, reconhece as virtudes de um ensino descentralizado e sem contacto com o ministério do eduquês. No seu dia-a-dia doméstico, a esquerda caviar coloca os seus filhos nos colégios onde o rigor do ‘antigamente’ ainda existe, mas, no seu dia-a-dia político, utiliza a escola pública para extirpar o ‘antigamente’ dos hábitos dos mais pobres. Ou seja, as crias progressistas são educadas à moda antiga, mas os filhos do povão são ensinados de forma progressista. Bravo. Os resultados desta hipocrisia estão aí: Portugal é uma sociedade estática, aristocrática, sem mobilidade social. Por outras palavras, a esquerda caviar esticou a sociedade salazarista até ao interior desta sociedade – nominalmente – democrática.

Meus amigos, esta esquerda é a principal inimiga dos filhos dos mais pobres. Dezenas de amigos meus ‘perderam-se’, porque a escola das doutoras Alçadas lhes destruiu o futuro logo à nascença. Mas, claro, não se pode falar disto. Porque o burro sou eu. Porque o ‘fascista’ sou eu. Porque o ‘neoliberal’ sou eu.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de Setembro de 2010

 

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Numa escola em Lisboa…

Habituados que estamos hoje em dia a receber noticias nem sempre abonatórias sobre a escola e o ensino, eis que surgem surpresas como esta.

Numa escola formada por pavilhões – Escola Secundária do Lumiar – um aluno de filosofia do 11º ano atira-se a um projecto de apresentação e discussão sobre um tema, que nos parecia completamente inusitado para um jovem como o João.

Eutanásia. Nem mais nem menos! Não ficando só pelo tema, convidou dois deputados (representantes do PS e do PSD), duas representantes do partido ecologista os verdes, uma enfermeira e uma psicóloga.

Em cima disse “…surpresas como esta”. Felizmente que há surpresas como esta, mas estas surpresas não nascem por “geração espontânea”. Nascem porque há um escol de professores, que fazem estes “milagres”, e que vivem num anonimato injusto.

Não tirando obviamente qualquer mérito ao aluno. Pelo contrário!

Parabéns João Silva, pela tua iniciativa e pela tua maturidade.

Abordaste um tema muito sério e que tem sido muito pouco debatido na nossa sociedade.

Mas nada como visitar o blogue da escola – Lume & Ar –  A Eutanásia e  “Hoje vou à escola

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