Um Mundo sem Europeus,ou uma Europa sem lideres?

por Henrique Raposo, Publicado em 24 de Maio de 2010

São duas histórias que se entrelaçam, duas histórias que só fazem sentido se forem contadas ao mesmo tempo, lado a lado. A primeira tem como protagonista a Europa, e o drama gira em torno do declínio económico e normativo dos europeus. A segunda é protagonizada pela política externa dos EUA, e o enredo aborda a forma como Washington está a redefinir o conceito de Ocidente através das suas alianças com as democracias asiáticas. Estas duas histórias são inseparáveis, porque o drama do declínio europeu só é compreensível se for observado pelo buraco da fechadura americano. Em 2010, podemos dizer que os EUA cumpriram o velho desejo do pai fundador, Alexander Hamilton. Que desejo era esse? De forma clara e cristalina, Hamilton pretendia que os EUA colocassem ponto final no domínio da Europa aristocrática sobre o resto do mundo. O sonho de Hamilton está cumprido. O sonho era, afinal, uma profecia.

Em 2010, podemos dizer que a Europa não tem qualquer centralidade na política mundial. Vivemos literalmente num mundo sem europeus. Como já se tornou evidente até para o europeísta mais empedernido, a Europa está a perder poder na política mundial, ou seja, encontra-se em declínio relativo perante os novos poderes (China, Índia, Brasil, Coreia do Sul, etc.). A Europa pesa cada vez menos na demografia global e na economia mundial. Além disso, a capacidade militar europeia também pesa cada vez menos no xadrez geopolítico. Este declínio relativo no campo do poder já seria, per se, um enorme problema para a Europa. Mas, atenção, esta perda de poder puro e duro representa apenas metade do problema que os europeus têm pela frente. De facto, a Europa não está em declínio apenas no campo do poder. A Europa também está em declínio no campo da legitimidade e das narrativas normativas, e este facto qualitativo é uma evidência no resto do mundo, embora seja um tabu na Europa. Os europeus ainda julgam que têm uma legitimidade especial dentro da comunidade internacional, mas, na verdade, o início do século XXI marca o ponto mais baixo da legitimidade da Europa perante o resto do mundo. Ou seja, além de estar a perder poder (economia, demografia, força militar), a Europa também está a perder autoridade (o poder moral que permite decidir o que está certo ou errado dentro da comunidade internacional).
Portanto, a grande novidade em 2010 já não é o declínio relativo dos europeus no campo do poder material. Aliás, até podemos dizer que isso já não é novidade. Em 2010, a grande novidade é, isso sim, a perda de importância da Europa no campo da autoridade moral. Este facto ficou evidente na famosaCimeira de Copenhaga (Dezembro 2009). Nessa cimeira ambiental, os europeus não tiveram capacidade para impor as suas narrativas normativas. O ambiente não é a preocupação central das sociedades asiáticas, como, por exemplo, a chinesa. E a posição política do Estado chinês também é clara: as metas que a Europa pretendia impor em Copenhaga representariam a imposição de restrições injustas e impraticáveis aos países em desenvolvimento. Aliás, nas potências emergentes, esta agenda ambiental europeia é descrita como “imperialismo verde“: boa parte dos asiáticos considera que a tal agenda verde é, na verdade, uma forma de a Europa bloquear a ascensão económica das potências asiáticas. Como sabemos, foi esta narrativa asiática que triunfou em Copenhaga. A elite europeia foi quixotescamente humilhada.

A definição daquilo que está certo ou errado na comunidade internacional já não está em mãos europeias; definir o bem ou o mal da política internacional deixou de ser um privilégio europeu. Copenhaga foi, assim, a oficialização mediática desta decadência normativa do Velho Continente. Porém, e contra todas as evidências, a elite europeia recusa aceitar este facto. A elite europeia recusa aceitar a ideia de que a Europa já não determina a moral e as regras da comunidade internacional. Logo a seguir à Cimeira de Copenhaga, muitos responsáveis europeus criticaram com o seu típico moralismo aChina e os EUA pelo fracasso da cimeira. Esta atitude é a pior que os europeus podiam ter. Em vez de encarar de frente o facto político (o declínio material e normativo da Europa), a elite europeia prefere diabolizar os EUA e a China. Aliás, este é um esquema mental comum na Europa. A elite europeia recria – há várias décadas – um duelo normativo entre EUA e Europa. Este duelo repetido ad eternum cria uma ilusão: a Europa, assim reza a fantasia, detém as soluções normativas certas; soluções que, claro, são partilhadas por toda a Humanidade. Ou seja, a Europa vê-se como representante normativo do Resto do Mundo e, por isso, sente legitimidade para contestar as soluções normativas de Washington, a suposta pária normativa da política mundial. Esta é uma enorme falácia. Washington tem mais em comum com o resto do mundo do que a Europa. Além disso, os EUA partilham as mesmas convicções com o restante mundo democrático (do Brasil à Índia).

Em 2010, podemos dizer que os europeus saíram mesmo da história, ou seja, deixaram de pensar em termos políticos. O homem europeu deixou de pensar nas relações políticas com outros homens, e começou a idealizar o homem apolítico e abstracto, o homem do TPI e da ONU. Ao deixar de pensar com termos históricos e políticos, ao deixar de pensar através de conceitos como Estado e democracia liberal, a elite europeia tornou-se simplesmente cega em relação às outras democracias.

“Um Mundo sem Europeus” foi feito contra este torpor apolítico da elite europeia. Queremos atacar este dado paradoxal: os europeus de hoje estão a trair a maior ideia europeia, a democracia liberal. Em consequência, “Um Mundo sem Europeus” tentou recuperar para a Europa contemporânea o pensamento de autores clássicos como Montesquieu, Kant, Burke e Aron. E por que razão é importante relembrar estes pensadores? Porque os europeus precisam de voltar a pensar a política através do Estado. Porque a Europa de hoje necessita de redescobrir a evidência esquecida: a democracia e as liberdades só existem dentro de um Estado gerido pelo constitucionalismo liberal. Porque a elite europeia necessita de reencontrar outra velha ideia, que a amnésia habermasiana tem procurado esconder: uma verdadeira ordem cosmopolita não nasce da abolição das soberanias e da emergência do santo imperialismo jurídico de um TPI ou de uma ONU; uma ordem cosmopolita não nasce do ventre de uma democracia pós-nacional e global, mas sim de uma interacção entre democracias liberais.

A redescoberta de Aron, Burke, Montesquieu e Kant não oferece um mapa sagrado em direcção ao futuro, em direcção ao fim de história. Mas, se redescobrissem estes autores, os europeus de hoje readquiriam, em primeiro lugar, capacidade analítica para percepcionar os factos da política internacional. E, em segundo lugar, redescobririam uma nova narrativa para a Europa no século XXI. Se tivessem a coragem para esquecer Habermas e abraçar Aron, os europeus descobririam que a Europa faz parte de uma imensa confederação kantiana, que assenta na ideia mais reluzente do património político europeu: a democracia europeia.

Mas nada disto vai acontecer. A elite europeia não tem a humildade suficiente para se confrontar com a realidade. Entre a ilusão da humanidade unificada no estirador eurocêntrico e a realidade pós-atlântica, a elite europeia escolhe sempre a primeira. A elite europeia prefere estar errada com Habermas do que estar certa com Aron. Os antigos tinham um nome para este fenómeno: decadência. O livro “Um Mundo sem Europeus” é uma revolta documentada contra essa decadência.

Observação:

Um livro a ler com alguma urgência.

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