Um exemplo típico da falta de cultura cientifica.

O TEMPO E A MEMÓRIA

Este nosso tempo…

por MÁRIO SOARES

Diário de Noticias Opinião 20-04-2010 (transcrevo)

1. Mesmo Pangloss, o célebre personagem de Voltaire, se existisse, teria hoje dificuldade em ver o nosso mundo, com o seu imperturbável optimismo… A natureza e a humanidade desencadearam os seus respectivos demónios, que parecem estar, cada vez mais, à solta. A natureza, nos diferentes lugares da Terra, tem-nos trazido, sucessivamente, tsunamis, ciclones, maremotos, inundações, ventos ciclópicos, tremores de terra e, agora, erupções de vulcões, na distante Islândia, que paralisaram os aeroportos da Europa do Norte, e não só. Um espectáculo triste e nunca visto.

São fenómenos naturais normais, dirão alguns, mais desatentos. Para aqueles que já vivem há mais de oito décadas, como eu, e nunca viveram nem tiveram conhecimento de nada semelhante, pela conjugação sucessiva de tantas catástrofes naturais, é prudente interrogarmo-nos: será que a mão inconsciente e desastrada do homem, que agride e maltrata o planeta e compromete os seus equilíbrios naturais, não terá nestes factos a sua dose de responsabilidade?

Não sou cientista nem tenho conhecimentos bastantes para poder ser ouvido e responder. Limito-me a pôr a questão.

A recente Cimeira de Copenhaga, que devia condenar o aquecimento global, foi um fracasso, como se sabe, em virtude do acordo suspeito estabelecido, à última hora, entre os Estados Unidos e a China, que, por coincidência ou talvez não, são os dois maiores poluidores mundiais. A verdade é que conseguiram paralisar, por uns meses, a Europa – à qual não atribuíram a menor importância – e várias delegações vindas de outros continentes…

Pior do que isso. Apareceram cientistas que contrariaram abertamente o pensamento da esmagadora maioria dos ecologistas, afirmando que o aquecimento global não é provocado pelo homem nem pelo abuso excessivo do emprego de combustíveis derivados do petróleo. É um facto natural, disseram e repetiram. Portanto, não há responsáveis. A ganância dos homens é capaz de prosseguir, em defesa dos seus interesses imediatos, sem sequer afectar as suas boas consciências, se as tiverem…

Acredito que, no próximo encontro internacional ecológico, a verdade científica seja reposta e as grandes potências sejam obrigadas a respeitar as regras que visam limitar radicalmente o aquecimento global.

Mas o mundo não está só perigoso por causa das catástrofes naturais que se sucedem, com indubitável maior frequência. O terrorismo global continua a fazer estragos, desde 2001. Vários países (excessivos, a meu ver) dispõem da bomba atómica. É preciso limitá-los. O acordo que o Presidente Barack Obama conseguiu estabelecer, com a Rússia e com a China, para reduzir as respectivas bombas atómicas e impedir a sua proliferação, a países que ainda não a têm – como o Irão -, foi um acontecimento notável, de consequências políticas e geo-estratégicas muito positivas.

Num mundo tão perigoso como aquele em que vivemos – com tantos conflitos armados, por resolver, em todos os continentes -, é preciso reduzir drasticamente a venda livre de armas e desenvolver a cultura de paz, de que tem falado, incansavelmente, Federico Mayor Zaragoza, e reduzir o mais possível as formas de educação para a violência, que as televisões, infelizmente, têm vindo a fazer, inconscientemente ou talvez não, e numa escalada inaceitável. Os governos europeus responsáveis e todos os outros que se consideram Estados de direito, e, portanto, são respeitadores dos direitos humanos, não podem deixar de tomar medidas eficazes para desenvolver a cultura de paz e repudiar, pedagógica e sistematicamente, todas as formas de violência, que entram quase sem darmos por isso, todos os dias em nossas casas. Para bem dos nossos filhos e netos e do futuro da humanidade.

Realmente, não é só a economia que está desregulada e a política incerta e insegura, à espera de melhores dias – não sabemos quantos – para vencer a crise. É também a natureza, com tantas catástrofes sucessivas. É tempo de a cidadania global abrir os olhos e reagir.

2.Não deixar apagar a memória. Em parceria com a Câmara de Vila Franca de Xira – e outras instituições -, a Fundação Mário Soares organizou no Museu do Neo-Realismo uma exposição sobre o “Campo de Concentração e Morte Lenta do Tarrafal”, criado em 1935, pessoalmente, por Salazar e instalado em Cabo Verde, numa zona então quase desértica. Estiveram presentes várias individualidades cabo-verdianas e portuguesas com vários presidentes de câmara, entre os quais o do Tarrafal, o governador civil de Lisboa e representantes de partidos de esquerda: Comunista, Bloco e Socialista. A exposição, que já tinha sido levada, há cerca de um ano, ao Tarrafal, foi muito melhorada e enriquecida, com inúmeros documentos e fotografias do campo de concentração, da sua história e foi objecto de um filme, realizado pela Diana Andringa, que foi exibido no Museu do Neo-Realismo, em estreia, no passado domingo.

Não deixar esquecer a memória histórica é importante e reconfortante, no plano moral e cívico, para aqueles que viveram e sofreram na pele o horror que foi a sua estadia no Tarrafal e as péssimas condições em que lá estiveram longos anos. Muitos morreram, como Bento Gonçalves, e tantos outros, na primeira fase de 1936 a 1945. Houve outra e o campo foi reaberto em 1961, só para os nacionalistas africanos, ditos então terroristas.

A vitória dos aliados e da democracia, no fim da guerra, obrigou Salazar – pelo menos isso – a fechar esse campo sinistro, em virtude da indignação com que a opinião mundial soube dos campos de concentração nazis.

Mais tarde, começou a conhecer-se que também havia campos de concentração, tão maus como os nazis, na União Soviética. Ao princípio, muitos – como eu, por exemplo – não quiseram acreditar. Parecia-nos impossível! Mas depois dos livros de Soljenitsin e de outros dissidentes célebres tivemos de nos render à evidência. E aprendemos. Não nos basta gritar: “Fascismo nunca mais.” É preciso ir mais a fundo e exclamar: “Totalitarismo nunca mais.” Seja qual for, reclame-se da direita ou da esquerda.

Manter viva a memória é muito importante. Porque não nos deixa cometer os erros do passado. Mas é também preciso, após a transição para a democracia, ter o cuidado, a tolerância e a habilidade política de não cair no justicialismo excessivo, que sempre cria divisões profundas em sociedades onde muitos dos cidadãos foram cúmplices, até pelo silêncio, do passado ditatorial.

A Revolução dos Cravos foi pacífica e tolerante. Não houve perseguições, nem discriminações, nem violências. Por isso, penso eu, vamos fazer trinta e seis anos de paz política e social, em que as instituições democráticas, apesar dos seus defeitos, funcionam sem grandes sobressaltos, revoluções, atentados ou actos graves de violência. É um activo de que devemos orgulhar-nos.

E, no entanto, tivemos quarenta e oito anos de ditadura cruenta e de contínua opressão política e social. Com a cumplicidade indiscutível da Igreja Católica, que foi durante décadas um aliado submisso do ditador, até ao Concílio Vaticano II, pelo menos.

Contudo, a II República, que comemora agora cem anos, teve a inteligência política de ser não só respeitosa como tolerante em relação à Igreja Católica, nunca se deixando cair em disputas religiosas ou em velhas retaliações. Que seriam inúteis e descabidas, aliás, num Estado laico que assegura o respeito pelo direito à liberdade religiosa a todos os cidadãos, bem como o direito de não ter qualquer crença.

Isso distingue, por exemplo, a Igreja portuguesa da espanhola, sendo a portuguesa muito mais aberta, tolerante e progressista. Espero que distinga também os partidos portugueses dos espanhóis…

3. A nossa vizinha Espanha. Está a viver, julgo eu, um momento particularmente delicado e complexo. Sou um amigo e admirador de Espanha, dos povos que a compõem e da sua invulgar cultura e arte. Muito da minha formação política foi feita seguindo, apaixonadamente, a guerra de Espanha, em favor, obviamente, da II República.

Depois da Revolução dos Cravos, segui, com enorme atenção, a “transição democrática” de Espanha, que constituiu um primor e um exemplo excepcional de habilidade e sensatez política. Admiro, sou – e fui – amigo de quase todos os grandes protagonistas desse período: D. Juan, D. Juan Carlos, Adolfo Suarez, Santiago Carrillo, Tierno Galván, Felipe González, Manuel Fraga, Jordi Pujol, Pallac, Maragall, Semprún, Raúl Morodo, Fernando Morán, Leopoldo Calvo Sotelo, Mugica e tantos outros companheiros do tempo do meu exílio em França.

Contudo, devo reconhecer que hoje, vinte e cinco anos depois de assinarmos, em Lisboa e Madrid, no mesmo dia, os respectivos tratados de adesão à CEE – e de um período tão largo e próspero de incomparável desenvolvimento -, a Espanha atravessa, como toda a Europa, um período de grandes dificuldades. Económico-financeiras, claro, apesar de a ministra da Economia e vice-presidente, Elena Salgado, ter concedido ao El País de domingo passado uma excelente entrevista em que afirma “ter-se estabilizado a situação e que haverá crescimento a seguir”. E mais: “Que já não se está na fase de combater a crise, mas de aproveitar a recuperação.”

Oxalá assim seja. Mas há vida para além da economia. O deficit é importante, precisa de ser reduzido, mas há que estimular a economia real e, sobretudo, cuidar das pessoas. Ora a política está séria, em Espanha. A oposição do PP, envolvida em tantos casos de corrupção, é difícil e não será o que mais preocupa o Governo Zapatero. Mas não esqueçamos a ETA, embora pareça em estertor final. O incansável ministro Rubalcaba tem dado alguns sinais de optimismo.

Há ainda os problemas complexos e extremamente difíceis das nacionalidades e das autonomias. E, para completar o quadro, a guerra do Tribunal Supremo ao juíz Baltasar Garzón, em virtude da investigação que fez ao franquismo e dos crimes praticados pela ditadura, durante e depois do fim da guerra, com mais de cem mil espanhóis sequestrados e desaparecidos e cerca de trinta mil crianças, tiradas dos cárceres em que estavam suas mães e também desaparecidas.

Felizmente, este ataque a Garzón não é popular em Espanha, segundo uma sondagem recente. Mas é apoiado por grupos de extrema-direita muito perigosos e que não desarmam. É uma situação que preocupa a Europa – que a segue, criticamente, muito de perto – e que também nos devia preocupar a nós, seus vizinhos, aliados e irmãos ibéricos.

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