O que não se disse na cimeira de Lisboa

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Mugabe

 

Muito se falou acerca da conveniência ou não da presença do senhor Mugabe que é acusado, sobretudo, de violar os direitos da oposição. Quando as genialidades omnipresentes dos nosso media falam contra o seu regime, omitem cuidadosamente as causas do verdadeiro estado caótico da economia do Zimbabwe, vítima sobretudo da expulsão dos farmers brancos que se viram de um dia para o outro expoliados de tudo o que tinham. Em nome da devolução de terras – aliás um processo agora também em curso na bolivariana Venezuela -, destrói-se de forma irreparável toda a estrutura produtiva do país. Se as injustiças na repartição eram evidentes, os acontecimentos ocorridos já há trinta anos do lado de lá da fronteira, aconselhariam mais prudência. O ódio racial, o simples ódio, demente, malfazejo e vingativo, pode mais. Quem não se lembra dos ataques e morticínios à pedrada de tudo aquilo que era branco? Nada escapava, desde os homens aos animais domésticos! Compreende-se bem o silêncio do regime quanto a certos factos. É que revelá-los ou mencioná-los belisca a boa consciência de uma certa esquerda, perita em retoques à fotografia da história. Criticar a perseguição do regime incapaz e sanguinário de Mugabe aos brancos, seria reconhecer aquilo que aconteceu em Moçambique, quando Samora Machel levou à saída precipitada de toda a população branca do território, condenando o novo país à miséria e exploração por parte daqueles que com a Frelimo cooperaram no intuito de substituirem os portugueses: o finado bloco de leste e os nossos “amigos e aliados” dinamarqueses, suecos ou holandeses. Gordon Brown decidiu não comparecer e fez bem. Durante muitos anos, os sucessivos governos de Londres contra Portugal bateram-se para a entrega de Moçambique a gente que em nada fica a dever ao senhor Mugabe. Quem não se lembra do bloqueio ao porto da Beira, das iniciativas na ONU e à acção nefasta das igrejas protestantes na África portuguesa? Os ingleses acabaram por saborear o amargo remédio que nos fizeram tomar durante anos. Agora já é tarde e nem a queda de Mugabe poderá remediar uma situação que se tornou irreversível. 

Desenraizados e sem recursos para trabalhar e reconstruir as suas vidas, os chamados “colonos” da antiga Rodésia devem hoje lembrar-se daqueles já distantes anos em que preferiram ignorar aquilo que se passava em Moçambique, onde uma potência europeia impunha a sua presença em África. Para eles, a Rodésia era independente e, assim, estavam seguros. A verdade é que ninguém está hoje seguro em África, seja magrebina ou subsaariana. Os ditadores de pacotilha mandam e desmandam, roubam e matam.

Fomos considerados colonos, mesmo aqueles de quinta geração. Ora, a realidade é bem diferente, porque os senhores que hoje comandam as chancelarias ocidentais poderão ser confrontados um dia com uma opinião pública que já em muitos países – e sem razão – considera

os imigrantes como … colonos ! O disparate anda sempre acompanhado pela distorção dos factos e faz parte da natureza humana, seja o homem branco ou negro. Duvido muito que os ingleses e a UE estejam demasiadamente preocupados com os matabeles ou os xhosas. Com vergonha em o reconhecer abertamente, insurgem-se na verdade, contra a expulsão daqueles que outrora tinham transformado a Rodésia-Zimbabwe no celeiro da África austral. Na sua habitual patetice, feita da ignoância, preconceito e medo do tribunal da história, o ministério sito nas Necessidades,

vai a reboque. Mugabe é mau, isso é, mas há que não especificar claramente o porquê de tal adjectivo. É que existe em Portugal um milhão de antigos refugiados que podem começar de novo a perguntar demais e isso não é conveniente. Envolve dinheiro, reputações e sobretudo, votos. 

 

 

Kadhafi

 

O antigo bombista de aviões de turistas. O velho protector de grupúsculos de terroristas que atacavam autocarros escolares. O financiador de comandos que assassinavam atletas olímpicos. Aquele que sempre recebeu de braços abertos todos aqueles que fugiam à justiça. Esse mesmo, esteve também em Lisboa. Chegou de forma espampanante – pelo menos julga ele- rodeado de gorilas-fêmea e de sedas. Instalou-se em tendas, trouxe um gigantesco Mercedes blindado. A sua deslocação deve ter custado uma fortuna ao pobre contribuinte de Bardia, Tobruk ou Kufra, que de burrico vende tãmaras de souk em souk. São assim os poderosos das novas nações, inventadas a régua e esquadro. Sem chegar ao nababismo de um tal José Eduardo dos Santos,

Kadhafi lá fez o costumeiro discurso anti-ocidente, exigindo ainda uma indemnização europeia aos novos estados africanos, coisa que ele próprio devia fazer relativamente ao seu próprio povo. Toda aquela prepotência e arrogância. Toda aquela impúdica estupidez e brutalidade só existem, porque já há cinquenta anos, alguns permitiram que essa gente se guindasse ao poder. Por interesse, decerto. A recepção feérica que Sarkozi dispensou ao Senhor das Tendas esclarece-nos: é que há um bilionário negócio com aviões e helicópteros. Triste mundo.

 

 

Publicada por Combustões em 12.12.07

 

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Filed under África, História Ultramarina

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