Angola 20 Anos Depois (6)

   

REGRESSO NO ÚLTIMO VOO

“És irmão ou camarada?” – a pergunta gelava o sangue. Do acerto da resposta dependia a sorte de quempor esses dias do fim do Verão de 75 se atrevia a andarpelas estradas de Angola. Houve gente espancada, emblemas engolidos,alguns ali mesmo traçadosà bala.  

José Gomes

Nesse fim de tarde de Setembro de 75, eram esperados no aeroporto da então ainda Nova Lisboa dois aviões para evacuar portugueses em fuga à guerra civil em Angola. Os primeiros 200 a partir já tinham passado do hangar à sala de embarque, pela ordem do costume: doentes, feridos e deficientes, crianças e casais.Quando o primeiro avião, um enorme “Boeing 747”, está prestes a tocar a pista, rebenta grande tiroteio, vindo não se sabe de onde. O “Jumbo” aborta a aterragem, ganha de novo altura e afasta-se.Américo Martins, que tinha ficado a coordenar as operações da ponte aérea repara que um carro de baterias, que arrancara para a pista à aproximação do avião, ficara no sítio, de luzes acesas. Um chamariz para as balas. Vira-se para o condutor, e ordena-lhe que vá lá buscar o carro. “Vá você!”, obtém por resposta. E foi mesmo.Pouco depois, é abordado por um oficial pára-quedista. “O que se passa?”, pergunta o militar. “Vocês é que devem saber!”, responde Américo Martins. “Deixe estar, vou já tratar disto”, garante o outro.As balas tracejantes deixam realmente pouco depois de riscar os céus por cima do aeroporto. O “747” volta a aproximar-se e finalmente aterra.Américo Martins sobe a bordo, vai à cabina falar com o comandante do avião, um brasileiro, para saber quantos pode embarcar. “O que é que você precisa?” pergunta o comandante. “De tudo!”, responde o português, que ele próprio já só tinha que comer quando a governanta negra que um amigo deixara para trás, por artimanhas que só Deus sabia, lhe desencantava algo que mastigar.“Comida não tinha, mas deu-me dois pacotes de tabaco, Marlboro”, conta Américo Martins, que ainda hoje abençoa os benditos volumes, que horas depois haviam de lhe salvar a vida.Passadas as cortesias, o coordenador da ponte aérea quer saber quantos pode embarcar. “Mande entrar até eu dizer”, responde o comandante. Américo Martins esfregou as mãos de contente, não sabia quando viria o próximo avião, e embarcou quase 300 pessoas – mais que o costume, que aquele voo ainda ia meter mais gente em Luanda antes de partir rumo a Lisboa.“E malas?, ainda perguntou, com a leve suspeita que estava a abusar da sorte. “Vim salvar vidas, não vim salvar malas”, veta o brasileiro. E toca de se fazer de novo à pista.“Correu-a toda, estava a ver que não conseguia alçar-se”, recorda. Por pouco. Ao fim do asfalto, o “Jumbo” afocinha para o barranco, mas lá começa a ganhar altura.Já eram dez da noite, Américo Martins resolve ir a casa antes do outro avião. No caminho, é parado. À luz dos faróis, vê um civil, armado e completamente bêbado, no meio da estrada. “És irmão ou camarada?”, pergunta-lhe, cambaleante, o cano da metralhadora apoiado na beira da janela do carro. “Nem uma coisa nem outra. Deixa-me passar, venho do meu trabalho!”, tenta Américo Martins. “Mas és irmão ou camarada?” insiste o outro, o cano a escorregar cada vez mais para dentro, o dedo no gatilho a aproximar-se cada vez mais do aro da janela.Achar a resposta certa era difícil. Camarada era como se tratava a gente do MPLA, irmãos eram os da FNLA, e o homem que tinha na frente tanto podia ser de uns como dos outros.Américo Martins sabia que havia gente que tinha cartões do MPLA, da FNLA ou da UNITA, para mostrar conforme as circunstâncias, mas não era o seu caso, nem ali lhe tinha servido para nada. O negro estava vestido de farrapos, que não eram farda de partido nenhum. Por respostas erradas, gente em Luanda foi obrigada a engolir distintivos, levou pancada com mangueira. “Eu próprio vi no Huambo gente encostada ao volante, traçada à bala”, lembra o antigo industrial do Porto, que partiu para Angola quando a fábrica que o pai lhe deixara, onde tinha fabricado os aros da cúpula do Palácio, lhe foi tirada a seguir ao 25 de Abril.Américo Martins puxa de um cigarro, ganha tempo, acende-o. “Tens tabaco?”, pergunta o negro. “Tenho”, e saca, de debaixo do banco, um dos dois pacotes de “Marlboro” que lhe dera o comandante do “Jumbo”.Parte-o em dois, dá 10 maços. “Deixa passar, que este é irmão!”, grita o homem para outro, escondido com a arma nos arbustos mais à frente.Américo Martins passara já por muitas situações do género. Era há meses encarregado da coordenação das operações da ponte aérea, depois que o engenheiro Alberto Marques Pinto partira, por causa de perseguições.O engenheiro encabeçara o movimento das forças vivas da cidade na criação do comité local da Comissão Nacional de Apoio aos Desalojados, quando Nova Lisboa foi invadida, em meados de 75, por 200 mil pessoas em fuga do Norte de Angola. “Viviam nas ruas e nas praças, dormiam, cozinhavam, faziam tudo na rua”, recorda.Às tantas, Marques Pinto manda perguntar para Portugal como ia ser resolvido o problema dos refugiados. De Lisboa respondem que a TAP resolvia o assunto. “Como, ninguém sabia. Só havia um voo por semana, quando havia…”, diz Américo Martins.Em Luanda, os dias de barco enchiam o cais, as manifestações em frente ao Palácio do Governador eram diárias. “Queremos sair daqui. Ajudem-nos”, diziam os panos estendidos, escritos em inglês e francês.Vários tentam a fuga por estrada, para sul, em direcção à fronteira do então Sudoeste Africano, sob administração da África do Sul. No caminho, são assaltados, as mulheres violadas. Quando conseguem chegar à fronteira, muitos perdem-se no território desértico. Às vezes, são localizados por aviões de reconhecimento sul-africanos.No Huambo, decidem contactar consulados de países ocidentais. O Consulado dos Estados Unidos responde que está pronto a auxiliar a comissão, desde que haja um pedido formal por parte de Portugal.É por essa altura que, em desespero de causa, o general Gonçalves Ribeiro, em Lisboa, faz um telefonema para o embaixador norte-americano, Frank Carlucci. Este promete o auxílio americano para a ponte aérea desde que seja efectuado um pedido oficial do Governo português. Nessa mesma noite, o Presidente da República, general Costa Gomes, entrega o pedido formal.“Até ao início da ponte aérea, os portugueses não eram perseguidos, mas depois começa a haver problemas”, recorda Américo Martins. Marques Pinto é suspeito de simpatias pela UNITA, começa a ser perseguido, e resolve fazer as malas.Passa as braçadeiras da Cruz Vermelha e da CNAD a Américo Martins, que fica encarregado das listas de embarque, da guarda das bagagens e da passagem dos comprovativos das entregas em dinheiro. E cada vez mais sozinho, que o oportunismo não tem cor nem nação: “Vim a descobrir que alguns se inscreviam no CNAD só para garantirem o lugar no avião”, conta.Com o aproximar da data da independência, começa a ficar inquieto com a própria sorte. “O comandante militar da zona veio ter comigo, pedir-me que continuasse a coordenar o auxílio”. A. Martins tenta explicar que a situação está a tornar-se insustentável, que já não há sequer gasolina para o carro. “Então ordenou-me que ficasse. E eu disse-lhe que só lhe obedecia se me desse umas divisas!”.Combina com o técnico das operações de terra destacado no aeroporto sair no mesmo dia. “Ele ia saber com antecedência quando a ponte aérea fosse terminar”, explica.Dito e feito. Regressa no último voo, na primeira semana de Novembro. Hoje, com 70 anos, perdida a esperança de recuperar a fábrica, tenta que lhe seja contado todo o tempo de trabalho, e que a pensão passe a ser decente, que 27 contos…  

O HOMEM DA PONTE

Quando os ricochetes das balas do princípio da guerra de Luanda começaram a faiscar nas paredes, o general Gonçalves Ribeiro achou que era altura de pôr a família a salvo.“Parecia uma festa. Os miúdos iam para a janela, ver aquilo”, recorda o general, que ainda se mexe na cadeira, vinte anos volvidos sobre os acontecimentos daqueles meses dramáticos em Luanda.“Eu também estava a acabar a comissão, mas resolvi ficar”. E ainda bem, que hoje Gonçalves Ribeiro, que viria mais tarde a ser alto-comissário para os Refugiados, é lembrado com admiração e reconhecimento por aqueles que com ele lidaram, por ter sido o homem de uma evacuação que, apesar de todas as dificuldades, conseguiu tirar de Angola quase meio milhão de portugueses.São tempos que o general preferiria, por pudor, não relembrar. Hoje, é a construção de uma outra ponte, ou, como diz, “um outro pilar da mesma ponte”, que lhe ocupa os dias: a cooperação militar portuguesa com as antigas colónias. “É notável que hoje isso se possa fazer sem ressentimentos. Os meus interlocutores são homens que naqueles tempos estava do outro lado. Há anos, em Maputo, encontrei o general Chipande (Alberto Chipande, antigo ministro da Defesa de Moçambique), e ele mostrou-me um dedo a que faltava uma falangeta. “Foi um desgraçado de um soldado português que ma arrancou, com um tiro”, disse-me. E eu respondi: “Ainda bem que era mesmo um desgraçado, senão não estava hoje aqui a contar-me isso…”.Não quis contar o telefonema feito para o então embaixador norte-americano em Portugal, Frank Carlucci, que, em desespero de causa, acabaria por fazer numa noite de Julho de 75, e por onde havia de começar a ponte aérea para a retirada dos portugueses de Angola.Nem o que teve de aturar dos que fugiam como o diabo da cruz quando se levantava o problema dos refugiados.“Fiz nessa altura coisas que nunca imaginara vir a ver-me fazer”, acaba por lembrar, a custo, e sem dizer nomes. “Quantas vezes, acabadas as reuniões, ia pelos corredores a dizer “Mas, meu tenente-coronel, é preciso fazer isto e isto”, e acabava a empurrar as portas de gabinetes para que não lhas fechassem na cara.“Era tabu. O problema dos portugueses em Angola não existia. Ninguém aqui queria ouvir falar disso”, conta.Em Angola, era o salve-se quem puder, o cada um por si. “Lembro-me de ter visto juízes, professores universitários, a manobrar guindastes no porto de Luanda. Quando os guindastes deixaram de funcionar, era com os paus de carga dos navios. Punham o que era seu a salvo, como podiam, e partiam para o aeroporto. As pessoas tinham perdido todo o sentido de sociedade, só existiam elas próprias”.Lembra com mágoa a política de meter a cabeça na areia que era regra em Lisboa, mas não tem dúvidas que fazer melhor era impossível.“Catorze anos foram tempo mais que suficiente para os políticos terem pensado numa solução para a guerra em África. Repare que Portugal foi a única metrópole a manter uma guerra nas colónias por tanto tempo. Os franceses e os ingleses tiveram problemas nas colónias, mas resolveram-nos rapidamente. Portugal foi o único país que aguentou guerras daquele tipo durante tanto tempo. Ainda hoje na OTAN há quem se admire de termos conseguido, nós, um país tão pequeno, manter forças em três teatros de guerra durante tanto tempo”.E com algo êxito, diga-se. “Na Guiné, a situação era má, em Moçambique, o general Kaulza de Arriaga não estava a ter os resultados que tinha pensado, mas em Angola a situação estava controlada. O Exército tinha parado as operações em 1972. O governador podia viajar por todo o território. Mesmo de comboio, podia ir de Vila Teixeira de Sousa, na fronteira, até Benguela”.Esses 14 anos de guerra são o triste recorde que, para o general, haveria de estar na base do 25 de Abril.“O país estava exangue. Repare, aos 18 anos, um jovem era mobilizado. Se tivesse um irmão com 10 anos, oito anos depois a família ia viver o mesmo problema”. Problema que era a angústia de nunca se saber em que acabavam as coisas, se era um dos que voltavam, direito ou como uma perna amputada, ou se ficava por lá, com uma bala no corpo.A 25 de Abril, foi como se um dique se tivesse rompido. E rapidamente houve quem pretendesse ocupar o vácuo de poder em Angola. Estava-se em plena Guerra Fria, e “os Estados Unidos, a Rússia, a África do Sul tentaram logo preencher aquele espaço”.A Portugal, perdido naquele tabuleiro de parada alta de mais, restou tentar manter-se à tona.No meio do vendaval, o general assume perante si próprio um compromisso. “Quem quisesse ficar ficava, mas era preciso que, quem quisesse vir, pudesse vir”. E ele próprio viria, por fim, a consciência mais tranquila.Aqui, foi o que se sabe. Gente metida em tudo o que era sítio, hotéis a abarrotar, com pouco mais que a roupa que traziam vestida, com uns trocos no bolso. Como sempre, o mal de uns é o bem de outros, e, quem para tanto teve artes, compôs a vida.No fim da ponte aérea, os números oficiais registavam 228.471 pessoas trazidas de Angola. De barco, mais 5.794. Ao todo, 234.265 pessoas. Esse número viria depois a subir mais umas dezenas de milhar, quando foram recenseados todos os regressados. Diminuídos uns quantos, que África só conheciam de fotografia, mas aproveitaram para ter cama e roupa lavada durante uns tempos.De trafulhices falou-se, à volta de uma centena de milhar de contos – coisa pouca comparada com os 50 milhões de contos gastos, a maioria donativos estrangeiros -, a Polícia Judiciária foi metida no IARN, mas não achou ponta por onde pegasse.  

UM PORTUGUÊS CONFIANTE

Quando teve notícia do 25 de Abril, António Conceição ficou satisfeito. Era tempo de Angola se desenvolver, de as oportunidades serem para todos, e não apenas para as grandes companhias do algodão e do café, protegidas pelo Estado. “O regime tinha medo que Angola se desenvolvesse e acontecesse como ao Brasil, que se tornou independente”, explica.Os negócios corriam bem, a empresa-mãe do Huambo já abrira delegações em Luanda e Sá da Bandeira, hoje Lubango. Ali começara a trabalhar quando fora para Angola, ido de Mansores, Arouca, em 47, terminado o seminário mas adiada a ordenação, que para outras coisas o puxava a vida.O sonho era o Brasil, mas sem serviço militar feito, nada feito. Para Angola, era outra história, até empurravam, se fosse preciso.Feita a tropa, emprega-se como agente de empresas de fornecimento e assistência de máquinas para a indústria ligeira, coisa de padarias, serrações, carpintarias, cerâmica. Depois, abre o próprio negócio, expande-o, que aquela era terra de oportunidades.Uma manhã de fins de Abril de 74 encontra-o à porta de um dos armazéns que tinha no Huambo. No primeiro andar, morava um exilado checoslovaco. A tomada do poder, após a II Grande Guerra, pelos comunistas, levara-lhe o pequeno rendimento de uma herança, e à decisão de mudar de ares.“Então, já sabe o que aconteceu em Lisboa?”, pergunta, ansioso de dar a novidade. O outro desencanta-o: “Não sabe o que é o comunismo! Não aguento aquilo tudo outra vez! Ainda me suicido”.Mas António Conceição não desanima, era grande a esperança que o golpe em Portugal resultasse em Angola em mais liberdade para trabalhar, para investir.“Mas sempre brancos e negros irmanados”, concluiu, após reunir o pessoal (chegou a ter à volta de 400 trabalhadores). “Pus o problema claramente, e a resposta que eles davam era: Patrão, nós queremos progresso para Angola, melhores condições para os nossos filhos, mas sempre ligados com vocês”.“Da maioria era essa a ideia. Não quer dizer que não houvesse uma minoria que pensasse de maneira diferente”, ressalva.  

O PRINCÍPIO DOS TRABALHOS

Com a assinatura, em Janeiro de 75, dos acordos do Alvor, começa o calvário de António Conceição. “Houve o Alvor, Portugal reconheceu os três partidos, infelizmente cada um com seu exército – não podia dar bom resultado – e nós tínhamos de os tratar todos com respeito. Eu fui procurado por uns e por outros, para os ajudar, por vezes até com mobílias, que também fabricava mobílias, ou com donativos, e atendi-os a todos por igual”.Mas às tantas começa a ser apontado com o apoiante da UNITA. “Sabe porquê? A certa altura, o comité da UNITA abordou-me, se eu deixava o dr. Savimbi instalar-se na minha propriedade e na minha casa, que eu nessa altura já vivia mais na cidade, tinha a casa disponível. Eu disse que sim, como diria a outro movimento qualquer. E assim foi. O dr. Savimbi, com toda a delicadeza, veio com o seu Estado-Maior ver as instalações, conversou comigo, perguntou de rendas, como é que era… Eu disse que queria nada, não seria por muito tempo. Deixei telefones, posto de rádio, instalações, mobílias. Instalou-se lá com o secretário, o Nzau Puna, e eu tinha absoluta liberdade de trânsito quando queria tratar dos assuntos da fazenda. Fui sempre respeitado, tanto por ele como pelas tropas, e ainda aconteceu salvar a vida a outras pessoas nos controlos por saberem da minha amizade com o dr. Savimbi”.Tudo muito bem, e assim continuou durante algum tempo. “Mesmo depois disso, continuei a ajudar o MPLA e a FNLA quando me solicitavam qualquer coisa. Até o Chipenda, veio uma vez pedir-me uma ajuda financeira e eu dei-a. Portanto, não tinha partido, porque eram todos angolanos”.Mas não há bem que sempre dure. Chegam os cubanos, e António Pereira Conceição passa a ser considerado apoiante da UNITA. “A Nova Lisboa, os cubanos ainda não tinham chegado. Mas já estavam a desembarcar quando isto sucedeu. E tive de vir embora, bem contra vontade”.Para mais, começava a faltar dinheiro para pagar ao pessoal. “Em grande parte, já não trabalhavam, assinavam só o ponto. Não era possível trabalhar, o que se produzia também não se vendia, não havia mercado. Onde eu ainda ganhava algum dinheiro era na serração, a fabricar carroçarias para camiões que iam para a África do Sul, e caixotaria para pessoas que vinham na ponte aérea ou em barcos”.Mas mesmo isso estava no fim. “E eu sabia que ia acabar aquela fonte de receita. Os próprios bancos já recusavam o pagamento de cheques, praticamente estavam fechados. Era natural que o pessoal ficasse indisposto quando não recebesse, e eu, que não tinha culpa nenhuma, ia ser a vítima”.  

PARTIDA ÀS ESCONDIDAS

Poucos dias antes de embarcar no avião, António Conceição tenta salvaguardar o que podia. “Procurei deixar o pessoal habilitado a continuar a administrar. Já nem havia notários a funcionar, mas dei-lhes uma espécie de procurações particulares, dando-lhes poderes para resolver todos os assuntos que pudessem surgir”.Aí começaram as suspeitas que estava para vir embora. “Um dia chego a uma serração grande, numa propriedade que tinha lá em Nova Lisboa, e vejo o pessoal reunido, o da serração e o da exploração agropecuária. Não me assustei, confiava neles, eram umas largas dezenas de pessoas, e puseram-se à minha volta. Então o que há, algum problema? perguntei. E a resposta era: Patrão vai-se embora. Que não, que tinha passado aqueles papéis porque tinha de ir às filiais de Sá da Bandeira e de Luanda, que os brancos que lá estavam tinham ido embora, e tinha de ver como aquilo estava. Mas não os convenci”.No dia combinado, vem mesmo embora, a única coisa que trouxe foram os alvarás das fábricas e os títulos da propriedade. “Não tive problemas, o coordenador da ponte aérea era um amigo”. Mesmo que não fosse, para António Conceição aquilo funcionou bem. Bem de mais, suspeita mesmo. “Se calhar para trocar os portugueses por outros vindos de Cuba, da RDA. Se não tivesse havido tantas facilidades na ponte aérea, era natural que muito mais gente tivesse ficado…”, acha.Uns tempos depois, recebe uma carta de um empregado, a dizer “Patrão, os cubanos levaram tudo, dizem que era para as lojas do povo”.A única coisa que conserva, se os devolverem, são os terrenos. “Houve nacionalizações, mas segundo me disseram uns pastores adventistas que lá estiveram há uns dois anos, a propriedade não foi nacionalizada. Funcionava lá um orfanato para crianças filhas de combatentes mortos na guerra, e estavam lá umas moças holandesas, tudo muito bem conservado”.Contaram-lhe até que – “pedi para repetirem diversas vezes, que me consolava a alma” -, quando procuraram saber da situação da propriedade, perguntaram ao delegado do governo provincial, e o homem mostrou-se espantado por ainda ser vivo, que as terras ainda eram dele, sim senhor, que, quando quisesse, voltasse.“Mas nunca me decidi a voltar porque tinha sido considerado apoiante da UNITA, e tanto era da UNITA como de outro qualquer. Mas tenho esperança de um dia ser uma pessoa desejada lá. E levar comigo empresários que já contactei, para ajudar a reconstruir Angola”.Chegou cá com o que trazia no corpo. “Podia ter ficado num hotel em Lisboa, como ficaram muitos, mas não estava no meu feitio. Vim parar aqui a Arouca, que era a minha terra”.A casa do pai estava ocupada pelos irmãos, teve de procurar outro sítio. Passados uns anos, a vida reorganizada, construiu casa. A princípio, foi difícil, como para os que por andavam. “Era difícil arranjar emprego, fiz uns serviços de borla, fazia relatórios para a Câmara a contar as carências da terra, a fazer serviços para a comunidade…”.E aproveitou para estudar o terreno. “Vi que uma das riquezas da zona era a floresta, e que os agricultores poderiam eles próprios intervir na transformação da floresta, em vez de proporcionarem o lucro todo aos intermediários”.E, com o apoio das pessoas da terra, deitou mãos à organização de uma cooperativa. “Já havia uma outra cooperativa, que tratava do leite, e eu fomentei a criação de uma outra, chamada a CODA. Comprámos um terreno de trinta mil metros quadrados, fizemos as infraestruturas, chegámos a ser visitados por estrangeiros. O alto-comissário elogiou a orgnização dos retornados de Arouca como um exemplo, porque não quiseram trabalhar isolados da população”.Mas o banco que ia fazer o financiamento exigiu que o projecto fosse só de retornados, não podia ter participação local. Ainda tentaram obter outro financiamento, mas as coisas falharam. E começou a haver invejas, suspeitas, houve até uma polémica no jornal da terra. A polémica foi resolvida, “mas quebrou-se o encanto”, conclui António Conceição.  

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