Angola 20 Anos Depois (5)

HISTÓRIAS DA BATALHA DE LUANDA

Em Fevereiro, nem um mês após a tomada de posse do Governo de Transição, tornou-se óbvio que o que parecia desconfiança entre os movimentos estava longe de diminuir. O poder residia, de facto, nos exércitos que cada movimento não cessava de armar. Na cimeira de Nakuru, em Junho, os três reconhecem culpas, e prometem pôr fim à violência. Era mentira.

José Gomes

As forças armadas conjuntas acordadas um mês antes no Alvor não passaram de uma miragem, e os confrontos esporádicos iniciados em Fevereiro rapidamente se transformam em renhidos combates, com milhares de mortos, ao fim dos quais, em princípios de Julho, o MPLA estava sozinho em Luanda.Pelo meio, a 21 de Julho, ficou a cimeira de Nakuru, no Quénia, promovida pelo presidente Kenyatta, na qual os três movimentos juraram a pés juntos que pretendiam pôr fim à violência.Raul M. chegara a Luanda em fins de 74. Depois de meia-dúzia de anos em Argel, nos anos 60, é criado numa base da guerrilha no Congo. E é com a memória da adolescência que recorda os combates de Luanda.“Uma das casas onde estive era na Praia do Bispo, uma estrada marginal com vivendas. Numa dessas vivendas, havia uma sede do MPLA. Por trás, havia um monte, e lá em cima havia uma sede da FNLA. De repente, começaram a entrar em “makas”. Desataram aos tiros, e tudo o que estava na rua desapareceu”, conta.  

A BATALHA DA FNLA

Outra casa para onde depois passou ficava na Avenida Brasil, que dá para o musseque do Rangel. “Ali ao pé havia uma sede da FNLA, até era considerada uma das sedes mais importantes. Ali é que houve mesmo grandes porradas”.Os combates começaram com trocas de tiros de armas ligeiras entre a sede do MPLA e a da FNLA. “Cheguei a ter 46 buracos de bala na parede do quarto. Não percebia como, morava num sexto andar. Até que um dia espreitei: eles nem sequer levantavam a cabeça para ver onde atiravam. Levantavam a arma acima do muro e despejavam o carregador”.Um dia, a FNLA montou antiaéreas no terraço do prédio, e virou-as para baixo, em direcção à sede do MPLA. “Avisaram o pessoal do prédio que era melhor ir embora, não se responsabilizavam pelo que acontecesse. E nós fomos mesmo embora, para casa de família na baixa. Quando o MPLA descobrisse donde estavam a atirar…”.No dia seguinte, quando voltam ao sítio, o apartamento já tinha sido atingido por um roquete. Nos dias seguintes, o prédio iria ficar completamente destruído.

Nessa altura, já os três movimentos de libertação tinham muitas forças em Luanda. A FNLA havia, desde Junho do ano anterior, mesmo antes da assinatura formal do cessar-fogo com o Exército português, metido muita gente na capital, vinda de Kinshasa. Quadros políticos e tropa. Eram conhecidos por não falarem português, apenas francês com sotaque carregado, e pelo comportamento, arrogante, mais próprio de um exército de ocupação.

SABATA E PASSARÃO

Mas quem ganhou a Batalha de Luanda para o MPLA não foi a gente do mato, foi o povo dos musseques, enquadrado por ex-militares negros do Exército colonial. Em Junho de 74, cerca de nove mil militares angolanos do Exército português tinham-se manifestado publicamente, exigindo a desmobilização imediata.“Uma das figuras paradigmáticas, uma das figuras emblemáticas, era um tipo chamado Sabata, que era um antigo ladrão do tempo colonial, mas que era muito popular nos musseques. Era uma espécie de figura mítica, porque era um indivíduo que fazia raides contra os da FNLA, e depois refugiava-se nos musseques. Dizia-se que andava com duas G3, de canos serrados”, recorda Raul.A FNLA também tinha o seu herói, um vadio branco de apelido Passarão. Conta a lenda que Passarão morreu abatido por Sabata em duelo singular. “Como se tivesse parado a guerra civil, os dois encontram-se no musseque, Sabata saca da arma, o outro estremece…”.Na verdade, não foi isso que aconteceu. De Sabata, mais tarde promovido a comandante, sabe-se que foi morto mais tarde, no 27 de Maio, em 77, durante o golpe de Nito Alves. Quanto a Passarão, diz-se que terá morrido em combate quando a FNLA foi empurrada até à fronteira.Na batalha por Luanda o MPLA perde vários heróis populares. “Outra das vítimas da guerra foi um que eu tinha conhecido no Congo, o Valódia. O Valódia morreu durante um assalto à sede da Revolta de Leste, do Chipenda”. Chipenda é expulso de Luanda logo em Fevereiro, e alia-se à FNLA.Morre também Nelito Soares, um dos autores do desvio de um avião que voava de Luanda para o Congo, nos últimos anos da década de 60. É morto durante uma – a única? – operação de comandos portugueses em Vila Alice, bastião do MPLA. Vários portugueses, como passou a tornar-se comum, tinham sido raptados e levados para Vila Alice.O Exército português exigiu a libertação dos reféns e a entrega dos responsáveis pela sequestro. Os responsáveis locais do MPLA fizeram orelhas moucas, e foi ordenada a intervenção dos comandos.Nelito Soares, que nessa altura saía da sede do MPLA para negociar, é abatido, e os comandos fazem uma razia.  

UMA COISA BANAL

Ao fim de algum tempo, a guerra em Luanda era uma coisa que se tinha tornado normal. “Para nós, que éramos miúdos, aquilo já era banal. Às três, quatro da manhã, íamos para a bicha comprar o pão. Às vezes, rebentava tiroteio, e toda a gente fugia. Mas depois havia discussões por causa do lugar em que estavam na bicha, e morria mais gente nessa discussão que propriamente nos combates. A guerra era uma coisa tão banal que a gente brincava aos beligerantes. Construíamos umas armas, em madeira, e andávamos para ali a disparar”.Mais. “A gente até ficava contente com a guerra civil, porque depois não havia aulas. Uma vez, à frente do colégio onde eu andava, apareceu uma manifestação do pessoal dos musseques…Ficou tudo tão aflito que as aulas tiveram de acabar e nós pronto, ficámos todos contentes”.Às tantas, começou a faltar comida em Luanda. “No sítio onde eu estava, não houve grandes carências. A gente ainda apanhava pão, mas tínhamos de fazer bichas de madrugada. E depois as pessoas tinham os seus esquemas, as suas relações… A mim nunca faltou de comer”, recorda Raul.“Por isso, para nós, miúdos, a guerra civil não foi aquela coisa hedionda… Só ouvíamos certos relatos, de gente que era morta de maneira bárbara, dizia-se que a FNLA matava com certos requintes, praticava antropofagia”.“Na Batalha da FNLA, aquela na sede na Avenida Brasil, contava-se de boca em boca, foi um grande acontecimento. Dizia-se que descobriram lá corações”.E sabia-se também da caça ao homem, do racismo. “A FNLA caçava tudo, quimbundos, mas sobretudo mulatos. Lembro-me que houve um mulato, que apareceu numa das casas onde eu estava, que tinha vindo lá de Carmona, do Uíge, e tinha sido apanhado. Levou porrada, e o fnla, o soldado, olhou para ele e disse-lhe: Seu mulato, passarinho sem ninho, seu filho da p…. E havia também aquele ditado: o branco vai embora de barco ou de avião, o mulato vai a nado”. 

UMA ÚLTIMA MENTIRA
A 11 de Junho, Savimbi, que entrara em Luanda a 25 de Abril de 75, vê o pequeno quartel da UNITA na capital angolana ser atacado pelas FAPLA.

A situação deteriora-se tão seriamente que o presidente do Quénia, Jomo Kenyatta, convoca para Nakuru uma cimeira de emergência. Após quase uma semana de discussões – para as quais Portugal não é convidado -, a 21 de Junho, os três movimentos fazem uma autocrítica, reconhecem ter dificultado a actuação do Governo de Transição, ter apelado ao tribalismo e ao racismo, armado a população civil, e comprometem-se a acabar com a violência e a intimidação, a integrar os seus exércitos numa força armada única e a desarmar os civis.Poucos dias depois, a 9 de Julho, após três semanas de violentos combates, a FNLA é expulsa de Luanda, e Savimbi pede protecção ao Exército português e ordena aos seus apoiantes que deixem a capital.Raul M. tem depois uma última recordação. “Quando já tinha mudado para uma casa no Bairro Salazar, lembro-me que houve uma altura em que só se ouvia martelar: pá, pá, pá”. E do porto, cheio de caixotes.  

ÁFRICA DO SUL AVANÇOU A PEDIDO DA UNITA E DA FNLA

O general Constand Viljoen, reformado desde 1985, já foi o “herói da Guerra de Angola” entre os soldados da África do Sul do antigo regime. Mas a sua personalidade não é a de um militarista no sentido convencional e o título assenta-lhe mal. Todavia, aceitou com prazer recordar e explicar os porquês teóricos da sua campanha de Angola.  

Maria de Lourdes Torcato
Correspondente em Joanesburgo

“Na década de 60 começaram as guerras em África pela descolonização. Foi uma pena que todos os movimentos de libertação se virassem para a URSS, para pedir assistência, treino e armas. Acreditavam que a melhor maneira de se libertarem era a guerra” – diz Viljoen. “E a URSS estava na fase de expandir a ideologia comunista na África Austral. Isto condicionou tudo e foi pena porque se podiam ter encontrado soluções e as coisas não terem tomado o caminho que tomaram” – diz Viljoen, comedido nas palavras, referindo-se à guerra de três décadas que rodeou a descolonização em Angola e fez do povo angolano o mais sofredor da história moderna.Mas havia alternativa, na altura, para os povos colonizados em África? “Infelizmente, por causa das nossas relações com os colonialistas ingleses e portugueses, a África do Sul adquiriu a reputação de ser uma espécie da nação semi-colonialista”, diz Viljoen.Para o general, a África do Sul poderia ter sido aliada dos movimentos emancipalistas na África Austral. Sem a aliança com a URSS, a independência aconteceria “sem guerra” – acredita o ex-general, que virou político. “Qualquer outra solução que não fosse a da guerra teria sido melhor”.“A independência de Angola foi a 11 de Novembro de 1975. Antes dessa data, com a assistência dos cubanos e da logística soviética, o MPLA tinha capturado vastas porções do país anteriormente controlados pela FNLA e pela UNITA. Foram estes que nos contactaram e como comandante general das operações recebi a missão de dar assistência à UNITA e à FNLA e, mais tarde, ao grupo de Daniel Chipenda, para retomarem as suas áreas tradicionais, de modo a que, a 11 de Novembro, a Organização de Unidade Africana estivesse em posição de obrigar à formação de um Governo de Unidade Nacional em Angola” – é como o general vê os acontecimentos de 75, que levaram uma poderosa coluna militar sul-africana em marcha desde o Cunene até Cela, a pouco mais de 100 quilómetros a sul de Luanda.“Instalar um governo de unidade nacional, em Luanda, era o nosso único objectivo, mas a OUA não conseguiu chegar a essa decisão” – insiste o general.O que lucrou a África do Sul com esta intervenção? O general resume: “Estávamos a lutar ao lado das forças anti-comunistas na África Austral. Contribuímos para a destruição dos regimes comunistas totalitários no mundo”. É claro que o general Viljoen, dados os acontecimentos posteriores, que levaram à queda dos regimes comunistas, considera que participou numa cruzada ideológica e que o Mundo devia agradecer à África do Sul.E, indo mais longe: “Conseguimos adiar as mudanças na África do Sul até uma altura em que elas se puderam fazer sem interferência comunista exterior”.E porque é que uma boa parte do Mundo, especialmente a África, não vê as coisas dessa maneira? “É tudo uma questão de propaganda, não temos os meios de controlo da propaganda que o resto do Mundo tem” – diz o general.O general Viljoen retirou-se das Forças de Defesa e Segurança em 1985 e ainda participou, em Março de 1984, na celebração do Acordo de Inkomati, entre a África do Sul e Moçambique, depois de ter dirigido pelo menos uma operação em que as SADF atacaram a Matola, nos arredores de Maputo, para desalojar um comando do ANC instalado numa vivenda.Nesse ataque, morreram moçambicanos inocentes e instalações sociais de valor foram destruídas. Mas, como homem de paz, este acordo é-lhe caro, considerando-o uma tentativa sincera de Samora Machel de acabar com a guerra que destruía Moçambique.Mas como explica que depois disso as SADF continuassem a apoiar a Renamo? “Não as minhas SADF”, diz secamente Viljoen. “Talvez privados, ou os CCB (unidade secreta, constituída por ex-militares)”.A conversa com Viljoen passa depois para a política e fala agora o líder da Frente da Liberdade, um partido africaner que nas eleições locais acaba de confirmou os seus quatro por cento de votos.“O Partido Nacional (de De Klerk) não tem futuro, porque não tem visão nem alternativa. É apenas um partido contra o ANC e isso não é um programa político. Eu tenho visão de futuro, pretendo defender a preservação da nação africaner e cooperar positivamente com o ANC no desenvolvimento económico da África do Sul e da região”.O general Viljoen, que dirige o projecto de assistência dos agricultores africaneres que querem investir em Moçambique e está a negociar a ida do primeiro grupo de agricultores para o Niassa, diz que já foi contactado por Angola para um projecto semelhante. “Mas em Angola a situação ainda não é clara” – conclui.O presidente Mário Soares vem brevemente fazer uma visita à África do Sul e o que é que o general Viljoen lhe vai dizer sobre estes projectos nas antigas colónias portuguesas? “Os portugueses fizeram muito pelo desenvolvimento económico das suas colónias em África. O que eu vou dizer ao presidente Soares é que foi uma pena que os portugueses tivesem fugido a correr de Moçambique e Angola em 1975, e que nós vamos fazer os possíveis por continuar a fazer o trabalho que eles deixaram”.  

RESPOSTA CÉLERE DOS CUBANOS AO APELO DE AGOSTINHO NETO

Paulo Teixeira Jorge, “histórico” da Revolução Angolana, assegura ao JN que a consulta aos soviéticos partiu do próprio MPLA Paulo Teixeira Jorge é, actualmente, o homem-forte das Relações Exteriores do MPLA. Um “homem de partido” que, no desempenho de tais funções, contribui de modo inequívoco para o nobrecimento, no estrangeiro, da própria imagem de Angola.  

Luís Alberto Ferreira
Enviado JN

Durante anos ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Jorge, dos mais inteligentes, dos mais cultos, dos mais respeitados (até mesmo entre os homens relevantes da UNITA) dirigentes angolanos, guarda uma invejável experiência no domínio das mais complexas relações internacionais. Washington, Moscovo, Havana, Kinshasa, Pretória, Brazaville, desfilam na ardósia da entrevista que Paulo Jorge acaba de conceder ao JN, em Luanda, a propósito da efeméride que, nestas colunas, tem vindo a ser objecto de um amplo registo.JORNAL DE NOTÍCIAS – Estes 20 anos de independência trouxeram algumas mudanças “qualitativas” no quadro das relações de Angola com os países imediatamente fronteiriços. O Congo-Brazaville, por exemplo. Que, no tempo do presidente Agostinho Neto, era governado pelo saudoso Marien Nguabi. E que, hoje, parece apoiar, veladamente, os independentistas de Cabinda…PAULO JORGE – As relações entre os dois estados foram bastante amistosas. Tal como as relações entre o MPLA e o Partido Congolês do Trabalho. Isto, evidentemente, sem esquecer os altíssimos níveis de solidariedade dos congoleses durante a própria luta de libertação nacional. Foi uma espécie de compensação para os desgostos e a aspereza da experiência vivida pelo Estado angolano, e pelo MPLA, nas relações com a actual e também vizinha República do Zaire. A morte de Marien Nguabi, a própria evolução situacional na República do Congo e na África Austral, modificaram esse quadro. O estado de graça, digamos assim, foi-se esbatendo depois dos bons ofícios do regime presidido por Nguesso. Provavelmente, uma consequência dos fenómenos registados (o multipartidarismo, por exemplo) tanto no Congo como em Angola. Estamos a restabelecer, de há uns tempos a esta parte, sobretudo a níveis de partido, certas formas convivenciais com o Congo-Brazaville.JN – É um dado adquirido, para Angola e para o MPLA, que o Congo-Brazaville se esforça por “intervir” no caso de Cabinda?PJ – Eu não creio que se possa dizer, rotundamente, que o Congo procura influenciar, está implicado ou tem “interesses” nas movimentações sobre Cabinda. O que nós sabemos é que há, de facto, alguns congoleses, deste ou daquele partido, alegadamente interessados na questão. Eu admito que esses congoleses sejam instigados por potênciais alheias ao Continente Africano. E também admito que, mais do que no Congo, haja no Zaire grande apetência desestabilizadora de Cabinda, igualmente em subordinação a interesses e instigações de fora do Continente. Tendo em apreço as potencialidades de Cabinda.  

EXÉRCITO AFRICANO

JN – A Nigéria, verdadeira potência africana, agora novamente nas bocas do mundo: é possível clarificar se a Nigéria chegou a disponibilizar-se, ou não, para intervir, militarmente, no passado, solidarizada com o MPLA?

PJ – O apoio da Nigéria, nessa conjuntura, cifrou-se em meios materiais. Não em tropas. Contudo, até mesmo a esse nível, o do envio de tropas e equipamentos respectivos, a Nigéria chegou a manifestar a sua firme disposição de impedir que um certo leque de forças periféricas realizassem os seus desígnios. A Nigéria foi, sem dúvida, dos países africanos de maior disponibilidade para Angola. Não vieram tropas da Nigéria para Angola porque, na oportunidade, se considerou desnecessário. Mas vieram, por exemplo, da Guiné-Conakri, alguns homens e algum equipamento; vieram também da Guiné-Bissau alguns homens e algum equipamento militar. Como é de todos sabido, preparava-se uma dupla invasão de Angola.

JN – Poderá supor-se, ou insinuar-se, que a Nigéria, com umas Forças Armadas numerosíssimas e bem equipadas, terá funcionado como elemento dissuasor de maiores ambições intervencionistas da “antiga” África do Sul?PJ – O problema da participação de forças africanas em conflitos no nosso continente foi discutido, várias vezes, a nível da OUA. Nos anos da década de 80 discutia-se muito a constituição e composição de um Exército Africano e o respectivo comando, orçamentos, etc. A ideia, porém, face às diferenças conceptuais, nunca chegou a tomar corpo. Mas, indubitavelmente, a Nigéria, num tal projecto de Exército Africano, teria uma participação bastante expressiva!JN – A distância de, precisamente, 20 anos: é firme a reiteração de que Angola, na altura da independência, esteve debaixo de uma grande ameaça?

PJ – Absolutamente. Uma acção combinada para atingir Luanda. A África do Sul viria, com as suas unidades militares, em apoio à UNITA. E a congénere zairense viria, por seu turno, em apoio à FNLA. Com um objectivo central: impedir a proclamação da independência, pelo MPLA, em 11 de Novembro. A resposta enérgica das FAPLA impediu o êxito dessa operação. Até porque, entretanto, tinham chegado a Angola os contingentes das forças internacionalistas cubanas, em resposta a um apelo do presidente Agostinho Neto. Ajudaram-nos a enfrentar dois exércitos regulares! O dos sul-africanos, na província do Cuanza-Sul, a nível do Rio Queve, que eles não conseguiram atravessar. E o dos zairenses, aqui a norte de Luanda, em Kifangondo.

JN – Os ventos da História determinaram, depois, que Angola, sob a direcção do MPLA, fosse um elemento de peso no próximo destino da Namíbia e da própria África do Sul…?PJ – Fizemos simplesmente o mesmo exercício. Competia-nos retribuir a solidariedade recebida. A SWAPO passou a actuar a partir do território angolano, tal como os combatentes do ANC fizeram, em Angola, a preparação das suas incursões. Lembro-me de uma frase do presidente Agostinho Neto: “Na Namíbia e na África do Sul está a continuação da nossa luta”. Uma frase legendária que o povo angolano assumiu, paralelamente ao seu sentir nacionalista.  

OS CUBANOS

JN – Foi aqui sublinhado o papel internacionalista dos cubanos. É possível, já, à distância de 20 anos, uma avaliação profunda do papel dos cubanos em Angola?

PJ – Eu penso que Angola contraiu, perante os internacionalistas cubanos (é assim que nós os designamos), uma dívida impagável. Há sangue de Cuba vertido em solo angolano. Para que nós conservássemos a nossa independência. Isto é um facto, de grande inteireza, não é uma figura de retórica. Sangue cubano vertido em nome de um só valor: a solidariedade. Porém, às vezes, as pessoas, quando se referem a essa presença dos cubanos em Angola, somente a analisam em termos militares. Quando, de facto, essa presença excedeu, largamente, os termos militares. Os internacionalistas cubanos desenvolveram acções que se reflectiram em sectores importantes como o da saúde, o da educação, o das obras públicas. Vieram centenas de médicos, centenas de professores, centenas de técnicos constituídos em brigadas para acções de conjunto ou pontuais. É possível encontrar, hoje, em várias províncias de Angola, sinais da acção multiforme e extremamente válida dos internacionalistas cubanos. Daí que a participação cubana continue a ser, em Angola, vivamente referida não só pela direcção do MPLA mas, também, pela população em geral.

JN – Lá fora, contudo, não falta quem diga que “os angolanos nem podem ouvir falar dos cubanos”…

PJ – Completamente falso. Temos hoje, em Angola, centenas e centenas de quadros que estudaram em Cuba, que se formaram em Cuba sem que o Estado angolano cobrisse os respectivos encargos. Essa foi, sem dúvida, outra das valiosíssimas contribuições do internacionalismo cubano. O povo angolano não se manifestou, jamais, indiferente, ou hostil a essa ajuda multiforme.

JN – Até que ponto Moscovo influenciou a vontade política e internacionalista de Cuba em Angola?

PJ – A reacção de Havana, dos cubanos, após o apelo do presidente Agostinho Neto, foi, posso dizê-lo, imediata.

JN – Não houve sequer um compasso de espera que fizesse pressupor alguma prévia diligência junto da antiga URSS?

PJ – Não houve. Porque, repare: quando os exércitos zairense e sul-africano começam a invasão do nosso território, estamos em Outubro de 1975. A cerca de um mês da proclamação da independência. Até à vinda dos cubanos decorre, pois, um estreitíssimo lapso de tempo. Entretanto, nós, angolanos, isso sim, conhecedores da situação de Cuba, conversámos com os soviéticos. Do que resultou, contrariamente ao que se disse, uma participação da antiga URSS traduzida em equipamentos e instrutores militares, nunca em soldados! Também se disse, e era completamente falso, que em Angola combatiam, a nosso lado, forças da antiga RDA…   

“PULSO” DE PAULO JORGE NOS CORREDORES DA CASA BRANCA

Durante algum tempo, a aposta do MPLA nas capacidades de Paulo Jorge incidiu na vertente da administração regional. Vertente incómoda, a dos governos provinciais. Paulo Teixeira Jorge foi governador de duas importantes províncias estratégicas: o Cuanza-Sul e Benguela. E ele não perde, de facto, a noção do tempo e… do espaço. Ao longo da entrevista que nos concede, em Luanda, na sede nacional do partido, Paulo Jorge procura demonstrar que o MPLA está, de modo realista, preparado para os corredores e tribunas da política internacional. Menos loquaz numas questões do que noutras, Paulo Jorge não se furta, porém, a tudo considerar. Savimbi nunca fará uma apreciação minimamente dúctil do papel que Cuba teve em Angola? Ora, entende Teixeira Jorge, não é coisa que entre nas preocupações mínimas do MPLA. Ou dos cubanos. Porém, note-se, Paulo Jorge não minimiza as “pressões exteriores que levaram a UNITA a hostilizar os cubanos”. Nomeadamente por banda da Administração (republicana) dos Estados Unidos. E, claro, do regime sul-africano já felizmente derrubado.Para Savimbi, diz Paulo Jorge, essa animosidade a Cuba funcionou como bandeira chamativa de apoios de toda a ordem. Nomeadamente, dos seus “padrinhos”. Bandeira-psicose-paranoia.

JORNAL DE NOTÍCIAS – Quando sobraçou a pasta das Relações Exteriores (Negócios Estrangeiros), travou, certamente, incontáveis “batalhas” conversacionais com os homens da Casa Branca. O que é que disse aos americanos sobre a ajuda cubana? Lembra-se de algum argumento básico?

PAULO JORGE – Lembro-me. Eu tive ensejo, no decurso de encontros com autoridades americanas, de lhes dizer, muito claramente, que o “conflito” entre os Estados Unidos e Cuba não era um “problema” de Angola! Nós, Angola, frisei, rejeitávamos categoricamente que a actuação dos Estados Unidos, relativamente ao problema angolano, se transformasse num prolongamento do seu “conflito” com Cuba. E a verdade é que Angola, de facto, foi palco para as mais diversas reproduções desse “conflito”. E disso é indicador o facto de somente o ano passado os Estados Unidos terem reconhecido a República de Angola

.JN – Ouviu, directamente, dos norte-americanos, tentativas de cristalização e imposição do chamado “linkage”?

PJ – Sim, nos encontros que tivemos foi-me dado a entender, pelos norte-americanos, que o reconhecimento de Angola e a normalização de relações, segundo os Estados Unidos, subordinavam-se a um condicionalismo: a “presença de tropas estrangeiras em Angola”, ou seja, os cubanos. Claro, os cubanos. Que não tinha lógica nenhuma, entendíamos nós. Porque os Estados Unidos, afinal, tinham relações diplomáticas com vários países africanos onde existiam tropas estrangeiras. Em Junho de 1977, os Estados Unidos da América do Norte estabeleceram relações diplomáticas com a República do Djibuti; e havia, nesse preciso momento, em Djibuti, 2.500 militares franceses! Então, as tropas francesas, no território do Djibuti, não são tropas estrangeiras? E não havia, também, tropas francesas na República Centro-Africana e no Senegal?!!!  

L.A.F.
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