Angola 20 Anos Depois (4)

  

ACORDOS DO ALVOR: UM FRACASSO ANUNCIADO

A 15 de Janeiro de 1975, no Hotel da Penina, sob a chuva miudinha que caía no Algarve, representantes dos três movimentos de libertação assinavam no Alvor os acordos para a independência de Angola. Mas, do que foi assinado no Alvor, aos três só interessava a independência, o que significava, para cada um, e sozinho, o exercício do Poder. O que ainda hoje se revela impossível.  

José Gomes
Na Guiné e em Moçambique, Portugal tinha sabido exactamente com quem iria negociar os acertos para a independência: do outro lado da mesa iriam estar só o PAIGC e a FRELIMO. Mas a existência de três movimentos de libertação no caso de Angola tornava impossível qualquer tentativa de uma rápida solução negociada.Foram necessários meses de cuidadosas negociações. Primeiro, a Organização de Unidade Africana reconheceu a UNITA como parte tão legítima como o MPLA ou a FNLA. Depois, em Mombaça, no Quénia, os líderes dos três movimentos prepararam o terreno para as negociações com os representantes de Portugal.Finalmente, no Alvor, os três concertaram com o Governo português um acordo sobre a fórmula pela qual Angola se tornaria indepedente.No Alvor, os três movimentos foram reconhecidos como únicos e legítimos representantes do povo angolano, e Angola como país indivisível, incluindo o enclave de Cabinda.Seria estabelecido um governo de transição, baseado numa fórmula de coligação. Um alto-comissário seria nomeado por Portugal, sob ordens directas do presidente da República, Costa Gomes, e o Governo de transição seria constituído por 12 ministros, três portugueses e os restantes nove distribuídos igualmente pelos movimentos de libertação.Um conselho presidencial, constituído por um representante de cada movimento, presidiria ao Governo, rotativamente, até à data marcada para a independência, 11 de Novembro.O Governo devia tomar posse até ao fim de Janeiro, marcar eleições no prazo de nove meses, e deveria ser constituído um exército unificado. Na altura da independência, essas forças militares unificadas deveriam ter 48 mil homens – 24 mil efectivos portugueses e oito mil de cada um dos movimentos. Os militares portugueses em excesso seriam evacuados até 30 de Abril, e todas as tropas portuguesas deveriam deixar Angola até Fevereiro de 76.Os interesses dos portugueses residentes eram assegurados, e os movimentos comprometiam-se a considerar angolanos todos os que tivessem nascido em Angola, ou os que ali vivessem e se declarassem angolanos por opção. Contudo, a concessão de cidadania aos não nascidos em Angola era remetida para o que fosse estabelecido na futura Constituição.

Assinaram por baixo, por Portugal, o ministro sem pasta major Melo Antunes, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, o ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, e, por Angola, os líderes do MPLA, da FNLA e da UNITA.

UMA SOLUÇÃO “IDEAL”

O problema não foram os acordos, pois, se havia alguma possibilidade de paz e estabilidade em Angola, ela teria de ser resultado de um acordo entre os três movimentos. Nenhum teria força para, sozinho, exercer o Poder no país inteiro, sem o acordo ou a aceitação dos outros dois.A questão é que, como nos meses seguintes viria a ficar amplamente provado, cada um dos três era exactamente para isso que se preparava – para se instalar no Poder, excluindo os outros dois.“No Alvor, discute-se a independência, e nada mais que a independência”, deixavam bem claro os membros das delegações angolanas na Penina, e uma, a do MPLA, adiantaria mesmo que “não há unidade dos movimentos. Apenas um programa comum”.“A grande ironia do acordo do Alvor é que, quando nós, em Portugal, já estávamos a ver que o processo democrático ia ser complicado, mesmo num país europeu que já tinha tido uma experiência democrática no passado, fomos tentar impor uma situação perfeitamente surrealista, a de criar um governo de transição com os três movimentos, como se isso fosse suficiente para acreditar na sua acção”, recorda Vasco Vieira de Almeida, que viria a ocupar o cargo de ministro da Economia no Governo de transição.“Foi exactamente o contrário: o Governo passou a funcionar como legitimador das acções no terreno e, por outro lado, como uma entidade que pairava sobre a realidade, já que era no terreno, e conforme a relação de forças, que os acontecimentos se iam produzindo”, comenta.

“Não houve, quanto a mim, da parte de nenhum dos movimentos, em momento algum, a ideia de que ia estabelecer-se qualquer forma de consenso para uma governação a três”.  

AGITAÇÃO EM PORTUGAL

Os meses seguintes iriam provar a total ineficácia do Governo. “Lembro-me, por exemplo, que quando, em 1975, foi preciso fazer a colheita do café – que é feita por trabalhadores do Sul -, nessa altura a UNITA não deixou vir os trabalhadores”, recorda Vasco Vieira de Almeida.As fábricas deixam de funcionar, pois os trabalhadores nem em transportes militares se sentem seguros, os portos paralisam, refugiados do interior enchem as ruas Luanda.A situação em Portugal teve também, segundo o então responsável pela economia de Angola, uma enorme influência no desenrolar dos acontecimentos.“A enorme agitação, aqui, em Portugal, tornava impossível estabelecer uma política coerente. Não havia instruções por parte do Governo português, havia apenas algum consenso entre as forças políticas portuguesas – havia desde forças que defendiam a independência imediata a outras que ainda pensavam que era possível fazer uma espécie de Comunidade Portuguesa. Perante um leque de posições destas, havia uma paralisação total do Governo, aqui”.“Se, não alterando em nada a nossa posição, tivesse havido um mínimo de capacidade de orientação a partir de Lisboa, teríamos tido força para impor, não uma alteração do esquema – a independência era um caso definido -, mas alguma ordem na forma como as coisas se passaram”, admite.

Mas as tropas portuguesas também não estavam dispostas a bater-se a partir do momento em que sabiam que a independência era inevitável. “Esse facto levou praticamente à desmobilização da tropa, apesar da situação militar estar longe de ser dominada pelos movimentos de libertação. Em termos estritamente objectivos, a tropa normal teria chegado perfeitamente para dominar a situação”.

… E NA TROPA

António M. chegou a Angola em Dezembro de 1974. Tinha acabado de licenciar-se em Engenharia Mecânica, no princípio do ano, e fora mobilizado para a Guiné, mas acabou por não ir. Depois, acaba também por não embarcar para Moçambique. Com o 25 de Abril, nasce a esperança de não ir para lado nenhum. Mas, finalmente, recebe guia de marcha para Angola.Antes, em Outubro, vai à Madeira, conhecer o batalhão de caçadores que lhe calhara em sorte.“Desde o princípio que havia forte contestação aos embarques”, recorda. “Não aos embarques” era uma das palavras de ordem mais ouvidas na altura. Quando o batalhão se apresta a embarcar, há incidentes com uma manifestação.Quando chega a Angola, vai para Quibaxe, Malanje. “Uma zona muito bonita”, lembra-se. Já na altura as tropas confraternizavam com os guerrilheiros. “Sobretudo do MPLA, que eram os que havia na zona”.A chegada dos primeiros da FNLA é, para António M., inesquecível. “Eram três. Chegam à porta de armas, entram pelo quartel dentro de arma aperrada, o sentinela abriu logo. O sargento veio chamar-me, lá falei com eles, os gajos pedem em francês para falar com o comandante”.Pouco depois, começa a haver as patrulhas mistas.Em Março de 75, há um levantamento de rancho no quartel, António M. é detido e enviado para a Casa de Reclusão de Luanda. “Aquilo até não teve nada a ver com a comida, era só agitação. Aliás, como se passou em vários sítios. Mais tarde, em Luanda, na Casa de Reclusão, vim a encontrar vários outros companheiros de “aventura”. Tinha havido em Cabinda, em Fevereiro, um batalhão de Artilharia que se tinha amotinado e prendido os oficiais na messe. Tomaram conta do quartel e exigiam regressar. Penso que foi também uma coisa organizada, havia aquela confusão toda”.“Como sabe, havia quem quisesse que a gente fosse para lá fazer aquilo que muita gente fez, entregar as armas ao MPLA. Em Quibaxe, muita gente fez isso. No nosso batalhão, tudo foi praticamente entregue ao MPLA”.Detido em Luanda, obtém ao fim de algum tempo autorização para saídas precárias, ao fim-de-semana.“Em Quibaxe, enquanto lá estive não houve confrontos. Mas depois vim a encontrar em Luanda algumas pessoas, brancos, que até eram simpatizantes do MPLA, e queriam ficar lá, mas tinham fugido quando começaram os bombardeamentos”, conta.Da guerra de Luanda, só lhe chegavam os ecos. “Na Casa de reclusão, ouvíamos os estouros ao longe, os tiros, as granadas”. Veio de avião, na véspera da independência. “Do que me lembro mais é das pessoas quererem vir-se embora, de qualquer maneira. Lembro-me que começou a especulação: com mil escudos portugueses compravam-se dez ou 12 contos angolanos”.

Além do grande receio que o obcecava na altura, que se esquecessem de o trazer para Portugal – onde haveria de penar dois anos, até ser condenado, depois de novamente preso, desta vez em Caxias, a seis meses de prisão, já cumpridos em prisão preventiva -, recorda que, durante o caminho para o aeroporto, Luanda não parecia ainda muito degradada, e o MPLA dominava. “Os outros chegaram a atacar a cidade, mas não entraram, pararam no Caxito”.

O FIM DA LINHA

Por essa altura, já Vasco Vieira de Almeida batera com a porta, e regressara a Lisboa. “Tinha tomado várias posições sobre a maneira como tudo se estava a passar em Angola, e tinha falado, inclusivamente, com os presidentes dos movimentos de libertação. Disse várias coisas: em primeiro lugar, que estava ali para procurar ajudar a fazer uma descolonização, para permitir que os portugueses que lá quisessem ficar em condições normais ficassem e os que quisessem vir pudessem vir. Por outro lado, considerei completamente impossível fazer prosseguir uma política com princípio, meio e fim no plano económico, porque a incapacidade, a rivalidade, tornavam impossível qualquer acção nesse sentido. A certa altura, tomei a posição de dizer que, ou havia um mínimo de entendimento no Governo para que se pudesse, naquele prazo, agir, ou vinha-me embora, pois não queria ser cúmplice numa situação que não era nem de protecção dos interesses portugueses, nem de desenvolvimento de Angola, nem de colaboração… não era nada”.Ainda vem a Lisboa, a uma reunião do Conselho dos 20 – onde estava o presidente da República, o primeiro-ministro, os chefes dos estados-maiores das três armas, o embaixador na ONU, entre outros – para explicar a sua posição. Mas, diz, “essa reunião foi absolutamente inconclusiva, porque não era possível obter aqui um consenso mínimo entre as forças políticas. Voltei para Angola e escrevi uma carta aos três movimentos de libertação, e essa carta causou grande agitação porque era uma denúncia total do que se estava a fazer”.Nessa carta, Vasco Vieira de Almeida refere que aceitara integrar o Governo de transição por julgar possível contribuir para reforçar o entendimento “aparentemente” alcançado no Alvor. Não contara, escreve adiante, “com a miopia política daqueles que, não contentes com precipitar o conflito no tempo, provocaram uma luta militar suicida de que a única vítima é o povo que também dizem representar, correndo o risco de aniquilar à partida o projecto pelo qual tantos se bateram e morreram durante 14 anos de luta contra compatriotas meus”.Constata que “quem abate milhares de velhos, mulheres e crianças, em todo o país, são angolanos”, bem como aqueles que “espalham a fome, o terror, a violência e o pânico em todo o território”, e interroga-se: “Que fez o Governo durante este período? Praticamente nada, excepto revelar a sua absoluta incapacidade e irresponsabilidade. O Governo não detém qualquer parcela do Poder, é um simples espelho reflector das lutas políticas mais profundas (…)”.A 12 de Julho, Vasco Vieira de Almeida abandona o Governo de transição e regressa. “Não foi por me vir embora, obviamente, mas julgo que é a altura em que fica marcado que as coisas não têm já mais solução”.

Não é só o já então ex-ministro a reconhecer o fracasso. Cinco dias antes, Melo Antunes estivera em Luanda para uma última tentativa de entendimento com os movimentos de libertação, e no dia 11 a própria Comissão Nacional de Descolonização, reunida em Lisboa, reconhece que não fora atingida nenhuma das grandes metas dos acordos assinados seis meses antes no Alvor.

NETO DEIXOU TODOS DE BOCA ABERTA

Agostinho Neto assinou no fim de 72 um acordo com Holden Roberto para a criação de um Conselho Supremo para a Libertação de Angola, que pretenderia unificar a luta dos dois movimentos contra Portugal.O acordo foi uma surpresa, pois as tentativas de unificação dos nacionalistas tinham, até aí, sido sempre frustradas pela tentação da hegemonia do mais forte, e, nessa altura, era o MPLA que reaparecia em cena, após o reajustamento na Frente Leste.A FNLA estava enfraquecida pela repressão da revolta de Kinkuzo, em que Holden mandou fuzilar dezenas de oficiais do seu Estado-Maior.Segundo o acordo, a Holden Roberto caberia a direcção política, e a Neto o Comando Militar Unificado.No MPLA, após a surpresa, concluiu-se que Neto acabara de entregar a direcção da luta nacionalista ao líder da FNLA. Chipenda cinde mesmo, com a Revolta do Leste.Sabia-se que a Primeira Região Militar do MPLA (Dembos e Catete) pressionava Neto para mandar mais armas para a região. O MPLA tinha o grande problema de não ter qualquer base no Zaire, o que dificultava a logística numa grande parte das fronteiras norte e leste de Angola.Holden Roberto, à parte os argumentos ideológicos – a FNLA considerava o MPLA um movimento de orientação comunista, e este acusava a FNLA de ser um movimento fantoche, ao serviço de interesses imperialistas – opôs-se sempre à concessão dessa base ao MPLA.O acordo acabaria por revelar-se uma hábil manobra do presidente zairense, Mobutu, para levantar do chão Holden Roberto, na qual Neto embarcara na miragem de uma base do outro lado da fronteira.Após o acordo, o líder da FNLA parte numa ronda por capitais africanas, admitindo a possibilidade de negociações com Portugal. E como chefe do Conselho Supremo, seria ele a liderar o processo.

Neto chama então Gentil Viana para seu conselheiro, e este inicia uma operação diplomática em várias capitais africanas, para reabilitar a imagem de Neto e evitar que o acordo fosse sancionado, argumentando que a primazia da luta de libertação devia ser dada à acção armada, e não a negociações.

ALVOR FOI “PERFEITAMENTE SURREALISTA”

Uma grande ironia do acordo do Alvor foi Portugal, quando já estava a ver que o próprio processo democrático era complicado, ter tentado impor em Angola uma solução “perfeitamente surrealista”, a de um Governo de transição com os três movimentos lá representados, disse ao JN Vasco Vieira de Almeida, que foi durante cinco meses o ministro da Economia desse Executivo.

Jornal de Notícias – O que recorda dos tempos que esteve no Governo de Transição em Angola?

Vasco Vieira de Almeida – Estive em Angola numa época particularmente difícil. Cheguei pouco antes de ter rebentado a chamada Guerra de Luanda, um período extremamente complicado porque tinha de preparar-se a saída dos militares portugueses de Angola e a passagem da Administração portuguesa para as novas autoridades saídas dos acordos de Alvor. Foi também o período em que rebentou a guerra, e todas estruturas, por se saber que a administração portuguesa ia cessar, foram completamente desestabilizadas. O que recordo é, principalmente, o esforço de alguns, entre os quais eu me contava, para tentar dar um mínimo de normalidade ao funcionamento da sociedade angolana, numa situação de conflito que tornava isso praticamente impossível.

JN – Era uma batalha perdida..

.VVA – Foi um período de enorme agitação, de situações de enorme violência. Para quem, como eu, que toda a minha vida fora anticolonialista, foi uma enorme pena ver destruir inevitavelmente um país. É isso que me leva a escrever uma carta aos três movimentos de libertação, dizendo qual era a minha opinião sobre o que se estava a passar e o que ia acontecer a Angola. Infelizmente, essa carta revelou-se profética.

JN – Teria havido maneira de mudar isso?

VVA – Não, não tenho qualquer dúvida. Havia dois tipos de problemas fundamentais. O primeiro é que, quando se faz o 25 de Abril, os movimentos de libertação dizem que não aceitam nenhuma forma de negociação, só aceitam conversar desde que seja assente o princípio da independência…

JN – Mas, no terreno, a situação não era assim tão má…

VVA – Sim, mas tínhamos uma situação que levou praticamente à desmobilização da tropa portuguesa, apesar da situação militar estar longe de ser dominada pelos movimentos de libertação. Mas havia esse princípio capital, o da independência, sem o qual não seria sequer possível conversar-se com os movimentos de libertação, e a falta de disposição das tropas portuguesas para se baterem a partir do momento em que sabiam que a independência era inevitável. E havia depois outra coisa óbvia: a enorme agitação, aqui, em Portugal, que tornava impossível estabelecer uma política coerente. Não havia instruções por parte do Governo português, havia apenas algum consenso entre as forças políticas em Portugal – desde as que defendiam a independência imediata às que ainda pensavam que era possível fazer uma espécie de Comunidade Portuguesa. Perante um leque de posições destas, havia uma paralisação total do Governo.

JN – E lá?

VVA – Lá, era a total insegurança de um Governo assente na estrutura que tinha sido definida no Alvor. Havia, no mesmo Governo, três tipos de movimentos de libertação, três primeiros-ministros… Se juntar a tudo isto o clima de Guerra Fria em que a coisa se passava, com os Estados Unidos e a União Soviética interessados numa solução do problema angolano, é evidente que era uma tarefa impossível.

JN – As autoridades de Lisboa terão até dito, apesar dos avisos de Luanda, que as coisas eram o que eram, e não adiantaria tentar mudá-las…?

VVA – Devo dizer que não sou muito favorável a esse tipo de argumento, que as coisas teriam sempre de passar-se como se passaram. É uma espécie de desculpa automática para todos os erros que se fazem. E fizeram-se erros enormes do nosso lado! Mas uma coisa é terem-se feito erros, outra é supor que em Portugal havia condições objectivas para impor uma solução unificada. O Melo Antunes, naquela altura, tentou uma solução de equilíbrio, e falou com os movimentos de libertação todos. Mas o MPLA estava então numa posição extremamente dura, porque tinha uma força militar importante, e sabia que tinha o apoio da União Soviética. Essa tentativa do Melo Antunes gorou-se por causa da atitude dos movimentos de libertação, em especial do MPLA, porque era de longe o movimento mais estruturado, o que estava mais próximo de nós, os dirigentes tinham estudado nas nossas universidades, tinha uma visão dos acontecimentos históricos e uma perspectiva política que não andaria muito longe das posições políticas de Portugal. Aliás, houve vários erros nessa altura: lembro-me, por exemplo, de um discurso de Agostinho Neto – de quem era amigo pessoal e por quem tinha muita admiração – em que praticamente dava a entender que os funcionários administrativos portugueses tinham que vir-se embora. Lembro-me que me meti no carro e fui a casa dele dizer-lhe que me parecia um disparate monumental. É importante também não esquecer que o MPLA não era uma força única, e a linha que tinha mais força na altura era uma linha dura, legitimada pelas pessoas que tinham estado na luta contra Portugal, e não compreenderam que uma certa flexibilidade abria a possibilidade de uma colaboração mais estreita com as forças que, do nosso lado, também representavam alguma moderação.

JN – No Alvor, os movimentos de libertação afirmaram que apenas estavam de acordo quanto à independência, e além disso não havia qualquer tipo de acordo ou cooperação. Mesmo assim…

VVA – Acho que uma grande ironia do acordo do Alvor é nós, quando em Portugal já estávamos a ver que o processo democrático era complicado, irmos tentar impor uma situação perfeitamente surrealista, a de criar um Governo de transição com os três movimentos lá representados, como se isso fosse suficiente para acreditar na sua acção.

JN – No processo angolano houve uma originalidade: creio que em nenhum outro processo de descolonização cidadãos do país colonizador se increveram em partidos do do país colonizado. Havia portugueses inscritos no MPLA, na UNITA…

VVA – Havia. A questão aí foi que Angola teve uma colonização muito especial. Não tinha nada a ver com Moçambique, em Angola a colonização foi feita por gente muito pobre. Aliás, é isso que explica, em parte, a nossa pseudocapacidade de lidar com povos africanos…Muita gente que saía daqui vivia em condições praticamente iguais às que viviam as populações em África. Lembro-me de ter encontrado brancos a viver nos musseques, o que era uma coisa inacreditável, como engraxadores nas ruas. Quer dizer, gente do país colonizador, que exerce o poder, ser engraxador em Luanda da mesma maneira que era engraxador no Rossio, é uma coisa inacreditável. O que se verifica, de repente, quando aparecem os três movimentos, e esses movimentos são legitimados pelo acordo de Alvor, é que as pessoas tentaram obter protecção a qualquer preço. O que se passou aqui também – a seguir ao 25 de Abril, eram raras as pessoas que não se inscreveram num partido, porque achavam que isso lhes dava alguma forma de protecção. E as clivagens foram feitas um bocado de acordo com o que era a posição social das pessoas – as que tinham interesses económicos achavam que o MPLA era marxista e portanto procuravam aproximar-se da UNITA, e muita gente que achava que era preciso uma mudança, que se reconhecia nas ideias difusas da época do MPLA. Outra gente aproximou-se da UNITA. Simplesmente, não tinha qualquer espécie de voz, porque se filiaram nos partidos mas não queriam ver-se envolvidos naquele vendaval. E havia muita gente, mesmo muita gente, com menos preparação, menos acesso a informação, que ficava varada porque descobria que aquilo, afinal, não era Portugal. Fizeram-nos descobrir que não eram angolanos, e o próprio MPLA, que a princípio tinha uma grande abertura, começou a fechar-se por força das pressões daqueles que tinham estado na guerrilha e que queriam ter acesso às posições que eram ocupadas por portugueses.

JN – A questão da cidadania dos angolanos por nacionalidade ou por opção – não ficou resolvida no Alvor, ficou para depois…

VVA – No fundo, o que veio ao de cima é que tinha havido um processo de colonização menos elitista, mas há uma coisa que é preciso não esquecer: é que havia uma sobreposição clara – havia dois povos, duas culturas, tipos de interesses diferentes, um domínio completo pelos portugueses da população angolana. Embora houvesse – e isto é um fenómeno diferente em Angola -, uma burguesia negra, escritores, poetas… Essa burguesia negra, que inicialmente tinha estado de alguma forma culturalmente próxima de nós, até em termos políticos – alguns tinham-se batido aqui o salazarismo – acaba por ser submergida, quer por aqueles que conduziram a guerra, quer por camadas novas que vão aparecendo e que cada vez têm menos que ver connosco. Aliás, não tenho ilusões que, à medida que o tempo for passando, o que vai haver é afastamento afectivo e emocional.

JN – Sai do Governo por iniciativa sua ou por pressões? Foi, como se disse, intimado a sair?

VVA – Não, não fui nada intimado. Eu tinha tomado várias posições sobre a maneira como tudo se estava a passar em Angola, e tinha falado, inclusivamente, com os presidentes dos movimentos de libertação. Eu tinha um plano económico para a recuperação de Angola, foi exposto publicamente, tinha o acordo de princípio dos três movimentos – é claro que isso para eles não tinha qualquer espécie de importância, mas era minha obrigação -, e ainda vim aqui a uma reunião duma coisa que se chamava o Conselho dos 20. Essa reunião foi absolutamente inconclusiva, porque não era possível aqui obter um consenso mínimo entre as forças políticas. Voltei para Angola e escrevi uma carta aos três movimentos de libertação. Lembro-me que nessa altura tive uma conversa com o Agostinho Neto, e ele disse-me: “És muito duro também connosco”, e eu respondi-lhe: “Não sou mais duro convosco do que com os outros, a vocês o que eu exigia era mais, e nessa medida vocês têm mais responsabilidades”. Como não obtive resposta à carta, nem daqui, nem de lá, vim a Lisboa e disse ao Presidente da República que não continuava. Devo dizer que houve um momento em que a mim me parecia que a posição de Portugal devia ter sido a de claramente apoiar um movimento, e esse movimento só poderia ter sido o MPLA, quanto a mim. Ao fazê-lo, talvez tornasse possível um entendimento, talvez tornasse desnecessário o recurso do MPLA aos cubanos, que foram um elemento de perturbação, e teria permitido a Portugal ter moderado de alguma maneira muitas das coisas. Porque, como disse, havia várias alas dentro do MPLA. O Agostinho Neto foi uma espécie de bissectriz entre todas as tendências. Havia nessa altura um grupo de pessoas lúcidas, como as que integravam a Revolta Activa, que eram vistas na altura pelo MPLA como um grupo terrível. A Revolta Activa era constituída por homens muito inteligentes, com uma capacidade de perspectiva interessante. Mas aquele grupo de pessoas válidas a certa altura foi marginalizado pela ala mais radical e mais ignorante do MPLA.

JN – Quanto à ponte aérea. Pensa que as coisas podiam ter sido mais bem organizadas?

VVA – Inicialmente, as pessoas aqui não se aperceberam da gravidade da situação em Angola. Lá, havia uma comissão militar que estava consciente disso, e, no momento em que se estabelece o pânico, o então tenente-coronel Gonçalves Ribeiro, que era o homem que dirigia o que restava da Administração portuguesa, fez o que era possível, e penso que, apesar de tudo, a ponte aérea e a vinda das pessoas é um feito fora do vulgar. 

Continua…

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