Angola 20 Anos Depois (3)

   MOSCOVO QUIS DAR A SAVIMBI A VICE-PRESIDÊNCIA DO MPLA 

“Histórico” da UNITA revela ao JN as contradições entre os principais protagonistas da luta armada

Miguel Maria N’Zau Puna, durante 24 anos secretário-geral da UNITA, afastou-se, dramaticamente, de Jonas Savimbi, pouco antes das eleições angolanas, em 1992. Hoje, deputado na bancada do Fórum Democrático Angolano (FDA), N’Zau Puna reflecte, em Luanda, sobre a evolução do país.

  Luís Alberto FerreiraEnviado JN 

Quais os passos madrugadores da UPA-FNLA e do MPLA? Quem, de facto, convenceu Jonas Savimbi a ingressar na UPA-FNLA? Que antecedentes tapizaram a decantada ruptura entre Savimbi, secretário-geral, e Holden Roberto, presidente da UPA-FNLA? Savimbi “namorou”, de facto, o MPLA? E, por isso, Holden Roberto quis eliminar Savimbi?

Miguel N’Zau Puna responde ao JN sem rodeios e sem calar convicções. Como quer que seja, a retrospectiva só parcialmente desvenda o que terá sido determinante e unívoco na criação da UNITA.

No peristilo da entrevista, que decorre, num entardecer cacimboso, no Bairro Azul (Samba), em Luanda, Miguel N’Zau Puna assegura que, em 1961, “muitos angolanos”, ele próprio, “apoiaram o 4 de Fevereiro sem verdadeiramente saber quem era o partido ou movimento que liderava a sublevação nacionalista”.

JORNAL DE NOTÍCIAS – A UNITA não existia, ainda, em 1961, mas certamente que, no interior do movimento, mais tarde, não subsistiram dúvidas quanto à autoria intelectual e material do 4 de Fevereiro em Luanda…

N’ZAU PUNA – Nenhumas dúvidas. Foi o MPLA quem desencadeou, em Luanda, o 4 de Fevereiro. As primeiras acções armadas contra o colonialismo começaram aqui mesmo, em Luanda. Com o 4 de Fevereiro. E as polícias coloniais, com a PIDE ao centro, iniciaram logo a repressão. Abafaram, praticamente, o movimento. Não havia condições para a revolução, nas cidades. É assim que começa a clandestinidade. A UPA, futura FNLA, de Holden Roberto, entra em acção no mês de Março, no norte de Angola. E torna-se mais conhecida. Ouve-se falar da UPA até na Namíbia, no Botswana e na Zâmbia… E de Luanda fogem para Kinshasa, via Cabinda, muitos angolanos.

JN – Onde estava Jonas Savimbi?

NP – Em Portugal, de onde foge para a Suíça, via Paris. Savimbi dá, então, início a uma digressão por países africanos. Vai a uma conferência em Kampala e segue dali para Nairobi, onde o “velho” nacionalista queniano Jomo Kenyatta se encontrava em regime de residência vigiada. Por imposição das autoridades (coloniais) britânicas. Foi o “velho” Kenyatta quem convenceu Savimbi a ingressar na UPA-FNLA, de Holden Roberto.

JN – Holden conhecia Jonas Savimbi?

NP – Holden Roberto tinha-se deslocado, anteriormente, à Suíça, para convencer Savimbi a aceitar o cargo de secretário-geral da UPA, mais tarde FNLA. Savimbi pediu-lhe que desse a conhecer o programa do movimento em todas as suas vertentes. E não gostou do que viu. Convincente foi, em Nairobi, Jomo Kenyatta. Ele convenceu Savimbi com os seguintes argumentos: “Se você, Savimbi, acha que a UPA-FNLA está mal estruturada, junte-se a ela, junte-se a Holden Roberto e mostre aquilo que aprendeu na Europa, nomeadamente em Portugal e na Suíça. Só assim você poderá participar na revolução”. Jonas Savimbi rende-se aos argumentos de Kenyatta, vai para Kinshasa e ingressa na UPA-FNLA. Holden é o presidente e ele é o secretário-geral!

SAVIMBI “MINISTRO” 

JN – Savimbi ajudou a UPA a organizar a luta armada, como lhe recomendou o líder queniano?

NP – Savimbi e Holden trabalham juntos, inicialmente Savimbi faz viagens, missões diplomáticas em vários pontos da África e do Mundo. Ele testemunha a fusão da UPA com o PDA (Partido Democrático Angolano), de que resulta, finalmente, a FNLA. Está-se em 1962 e Savimbi conclui, tal como Holden Roberto, que é preciso evoluir para outros patamares na luta armada de libertação. Que a própria UPA tinha, já, em Março de 1961, desencadeado no norte de Angola, mormente na região de São Salvador. Constituída a FNLA, decide-se logo a formação de um “governo”. O GRAE, Governo Revolucionário de Angola no Exílio.

JN – Isto, portanto, em 1962. Que cargo atribuiram a Savimbi nesse “governo”, o GRAE?

NP – O cargo de ministro das Relações Exteriores. Savimbi participa amplamente na divulgação do GRAE, que recebe em África múltiplos apoios. E quando se dá o processo de formação da OUA, Jonas Savimbi é escolhido para a direcção do Comité dos Movimentos de Libertação. Corria o ano de 1963. Prepara-se um documento sobre os movimentos de libertação que deve ser apresentado aos chefes de Estado africanos, no âmbito da OUA. Mário Pinto de Andrade, do MPLA, faz parte da respectiva comissão redactorial. Surge a primeira fricção, entre Savimbi e Holden, por uma questão “hierárquica”: Savimbi entende que a leitura do documento deve ser feita pelo histórico queniano Oginga Odinga. Holden, contudo, argumenta que ele próprio, presidente da FNLA, deve proceder à leitura do texto. A preferência acaba por recair em Oginga Odinga…

JN – Foi um primeiro sinal público das diferenças entre Holden e Savimbi, na UPA-FNLA. Mas o “tapete” do quotidiano,em Kinshasa, era escorregadio: cresciam as clivagens, na FNLA, entre as duas tendências…

NP – A “francófona”, de Holden Roberto, e a “lusófona”, de Jonas Savimbi. Sim, o problema existia. Definem-se grupos no interior da FNLA, em Kinshasa. Mesmo no seio do GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio) as clivagens notavam-se. Os mais novos apreciavam o dinamismo de Jonas Savimbi. Mas houve quem conseguisse influenciar Holden Roberto. Convencê-lo de que Savimbi estaria a ir longe de mais na estratégia da luta de libertação. Claro que os quadros “francófonos” da FNLA estavam, em Kinshasa, num “habitat” familiar. Tinham estudado, esses angolanos, com Holden Roberto e com indivíduos zairenses.

NETO E O MPLA 

JN – Jonas Savimbi sentia-se, portanto, na FNLA, numa situação incómoda, tanto mais que, para chegar à presidência, teria de desbancar Holden Roberto, instalado de pedra e cal… até hoje. Savimbi voltou-se, então, para o MPLA?

NP – Quando o dr. Agostinho Neto chega a Kinshasa, fugido de Portugal, e ocupa a presidência do MPLA, nós (eu, o dr. Savimbi e outros) já lá estávamos. Havia, necessariamente, certas afinidades. Dizia-se: “Nós todos viemos de Angola…” Éramos os “lusófonos” da FNLA, os “lusófonos” do MPLA… No interior da FNLA, congratulamo-nos com a fuga de Agostinho Neto.

JN – Mas, na FNLA, em 1963, era a “tendência Savimbi” quem assumia, no concreto, as aproximações ao MPLA?

NP – O próprio Savimbi. Lembremos que ele, em Portugal, quando estudante, convive com angolanos que, depois, militam no MPLA em Kinshasa. A aproximação entre Savimbi e o MPLA tornou-se inevitável, até porque Savimbi se sentia incómodo e hostilizado pelos “francófonos”, na FNLA.

JN – E Savimbi acabou mesmo por ir a Moscovo. Em que contexto pretendeu Jonas Savimbi a ajuda dos soviéticos?

NP – Ao desenhar-se a ruptura com Holden Roberto e a FNLA; Savimbi diligenciou enviar guerrilheiros para a União Soviética, para serem treinados. O próprio Savimbi foi, então, a Moscovo. E registou-se um impasse. Os soviéticos queriam que Jonas Savimbi, em vez de meter ombros à criação da UNITA, aceitasse o lugar de vice-presidente do MPLA. Savimbi recusou a proposta. 

HOLDEN DESCOBRIU A “TRAIÇÃO” E AMEAÇOU PRENDER SAVIMBI 

O futuro líder da UNITA “deu a entender” ao dr. Neto que acarinhava

a hipótese de mudar para o MPLA

“Eu não sei se a ideia chegou mesmo a dominá-lo, mas é verdade que Savimbi deu a entender ao MPLA que encarava a hipótese de se juntar ao dr. Agostinho Neto”, disse também, ao JN, Miguel N’Zau Puna.

O antigo secretário-geral da UNITA pensa que os soviéticos, quando “propuseram” ao dr. Savimbi a mudança (da UPA-FNLA) para o MPLA, onde ocuparia a vice-presidência, pretendiam esta simples coisa: concentrar, à volta de Agostinho Neto, o maior número possível de nacionalistas angolanos.

Miguel NZau Puna evita, contudo, cair na assertiva de que o dr. Neto estaria totalmente receptivo à iniciativa ou pretensão dos russos. Ele admite, simplesmente, que Agostinho Neto iria, talvez, compreender que a vice-presidência (do MPLA) para Savimbi constituiria uma “acomodação”, que poderia até ser meramente transitória.

NZAU PUNA – Uma coisa é certa: numa reunião de quadros “lusófonos” da UPA-FNLA, efectuada em Kinshasa, Jonas Savimbi advertiu-nos: “Nem a FNLA, nem o MPLA; não servem. Eles têm os escritórios aqui, no Congo, fora de Angola, portanto. Estão bem instalados e deixam os camponeses angolanos entregues a si próprios”. Savimbi teorizava sobre a urgência de criar um movimento cuja direcção deveria lutar, ao lado do povo, no interior de Angola.

JORNAL DE NOTÍCIAS – Quando foi que Holden Roberto se deu conta das aproximações de Savimbi ao dr. Neto e ao MPLA? Miguel NZau Puna acompanhou, presencialmente, esses desenvolvimentos?

NP – Eu mantinha, com Savimbi, uma colaboração estreita. Foi em 1963 que o presidente da FNLA, Holden Roberto, soube dos contactos Savimbi/MPLA. Holden dirige-se à capital da Tanzânia para participar numa reunião da OUA. Ali descobre tudo. Ele não estava preparado, em 1963, para dar cobertura a semelhante coisa: contactos com Agostinho Neto e o MPLA. Havia, como há pouco disse, na UPA-FNLA, um clima discriminante adverso não só para Savimbi e seus companheiros mas, também, para o MPLA. Holden, praticamente, mal falava o português. Era um puro “francófono”.

JN – Holden, depois da reunião da OUA em Dar-es-Salam, quis romper com Savimbi por este ter contactos com Agostinho Neto?

NP – Pior do que isso. Holden Roberto anunciou, na Tanzânia, a sua intenção de, mal chegado a Kinshasa, mandar prender Savimbi. Eu próprio seria, igualmente, encarcerado, mas as coisas não tiveram esse desfecho. Porque, entretanto, agudizaram-se as dificuldades que o MPLA experimentava em Kinshasa, onde o regime se tornava intratável para Agostinho Neto e seus homens. O MPLA acabou por ter de se transferir para a vizinha Brazaville, na outra margem do rio Zaire.

 

“ORDEM”PARA O MPLA: INTEGRAÇÃO…NA FNLA!

Acabava a Organização da Unidade Africana, OUA, de reconhecer o MPLA e a FNLA como “os únicos movimentos de libertação de Angola”. De súbito, conta Miguel N’Zau Puna ao JN, uma comissão da OUA desloca-se a Kinshasa. O MPLA estava em dificuldades operativas. A UPA-FNLA, dividida. E os enviados da OUA verificam, no terreno, que é a FNLA quem tem, de facto, homens a combater. Face a tal constatação, a Organização Africana “ordena”, em medida talvez insidiosa: que o MPLA seja, com os seus quadros, absorvido pela FNLA, de Holden Roberto!

“A título individual”, recorda Miguel N’Zau Puna, segundo o argumento da OUA, cuja comissão incluia elementos da Nigéria, Congo-Brazaville, Argélia e Guiné-Conakri.

JN – O MPLA não tinha, em 1962/63, guerrilheiros no terreno?

N’ZAU PUNA – Não tinha. Porque, uma vez retirado, obrigado a retirar-se do Congo-Kinshasa para o Congo-Brazaville, ficou quase mutilado. Mas, num rasgo de firmeza, o dr. Agostinho Neto recusou a integração na FNLA, mesmo “a título individual”, como pretendia a OUA. A quem Neto mandou recado: “Se nós, MPLA, trabalhamos agora oito horas, diariamente, vamos passar a trabalhar dezoito!”. Foi assim que o MPLA meteu mãos à abertura da sua “segunda região”, nas matas de Cabinda.

JN – Que apreciação fez Jonas Savimbi deste caso?

NP – Achou coerente a postura do dr. Neto. Savimbi tinha por Neto uma confessa admiração. Admirava-lhe a coragem e a criação poética revolucionária. Admirava o facto de Agostinho Neto ter desafiado, em Portugal, o aparelho colonial-fascista. Savimbi discordava das posições de alguns elementos do MPLA, mas mantinha com Neto um certo entendimento. 

 ELE NÃO SE SENTE DERROTADO E NÃO ACEITA ENTRAR NO REGIME! 

Miguel N’Zau Puna prevê que o líder do movimento do “Galo Negro” exija o máximo para evitar represálias dos seus próprios soldados…

Só mesmo quem conheça muito bem Jonas Savimbi pode expressar-se com a precisão, e o desenfado, de Miguel N’Zau Puna. Um dos fundadores da UNITA. E, por certo, também, um dos beneficiários intelectuais dos cerca de 4000 títulos que Savimbi acarinhava na sua biblioteca multidisciplinar da Jamba. N’Zau Puna, que reconhece “a espantosa capacidade de trabalho” de Jonas Savimbi, entende que ele “não vai renunciar ao partido, nem à força militar”. Logo, muito dificilmente o líder da UNITA aceitará uma das (duas) vice-presidências da República angolana.

Savimbi, um homem que “não aceita conselhos de ninguém”, no partido, “deve estar a preparar qualquer coisa diferente”, admite, também, Miguel N’Zau Puna. O “Galo Negro” pode estar à espera da “consolidação” de Jacques Chirac e da “queda” de BilL Clinton a favor dos republicanos…

O repórter do JN faz, em Luanda, o que lhe compete: além de revisitar, com protagonistas de carne e osso, os caminhos da história remota, tenta convencer políticos e militares da utilidade de uma avaliação do processo de paz. Isaías Samakuva, da UNITA, abandona subitamente Luanda. Rumo ao Bailundo, quartel-general do “Galo Negro”. O general Ben-Ben também se encontra no Bailundo: queixa-se de ter sido vítima, em Luanda, de um atentado; as autoridades referem-se a uma bala perdida, presumivelmente disparada para o interior da casa do carismático general da UNITA.

Na capital, elementos próximos do Governo e do MPLA sussurram, junto do enviado do JN: “Até agora, a UNITA mandou para os acantonamentos, somente, uma garotada, que não tem nada a ver com os seus guerrilheiros”.

É a desconfiança reinstalada. O representante especial das Nações Unidas farta-se de levar as mãos à cabeça e, quando pode, vibra alguns murros na mesa.

Miguel Maria NZau Puna, o antigo secretário-geral da UNITA, está disponível para falar, também, do presente. E nem sequer se demite de arriscar algumas previsões: “Jonas Savimbi não se considera derrotado!”, avisa. Ele conhece bem o líder da UNITA, com quem trabalhou desde a fundação do movimento.

JORNAL DE NOTÍCIAS – Mudaram os dados, no terreno. A África do Sul já não é a mesma. Mobutu não tem sossego. E o general João de Matos, do Exército governamental, chegou a pensar numa vitória esmagadora e definitiva sobre as FALA. Face a estes indicadores: a UNITA poderia, ainda, reacender a guerra em Angola?

N’ZAU PUNA – O material que a UNITA tem, ainda, escondido em parte incerta, pode não proporcionar acções militares de vulto, mas será o suficiente para, durante algum tempo, causar danos. Com isso, voltaria a crescer a insegurança. E os investidores fugiriam, mais uma vez.

 REPRESÁLIAS 

JN – Quais serão, nesta altura, os verdadeiros propósitos de Savimbi?

NP – Savimbi está a querer ver o que é que ganham, ele e os seus homens. Qual é a contrapartida. Savimbi não vai limitar-se a ocupar um posto relevante na nova hierarquia do poder em Angola. Ele pretende obter, também, cargos para os seus homens. Para que se sintam recompensados. Se o não conseguir, o próprio Savimbi corre sérios riscos na UNITA. Iriam verificar-se represálias. Savimbi deve ter por aí, ainda, muito armamento escondido. Que o Governo e as Nações Unidas não controlam. Enquanto não houver uma clarificação total, ele poderá, sempre, dizer que não autorizou nem tem nada a ver com esta ou aquela fustigação efectuada pelos seus soldados. “Foi sem o meu conhecimento”, dirá ele. Porém, no caso de haver entendimento com o MPLA, com o Governo, Savimbi já terá de assumir concretamente as suas responsabilidades. Porque, na UNITA, ninguém desobedece ao Savimbi.

JN – Recentemente, Savimbi confessou-se arrependido do comportamento que assumiu, em Luanda, em 1992, depois das eleições. E também já reconheceu o que sempre negara obstinadamente: ter pactuado com o exército colonial português. Estes rasgos vão beneficiar ou prejudicar a imagem de Savimbi junto do povo angolano?

NP – De uma coisa estou seguro: com estas jogadas todas, Savimbi quererá tudo, tudo, menos queimar a sua própria imagem. Estas confissões, estes arrependimentos, o “perdão” que ele anda a suplicar, não é nada daquilo que ele diz ou propõe no seu comité restrito, na UNITA. Savimbi é assim: dentro de casa, uma linguagem. Fora, outra linguagem. Ele sabe muito bem que não é cómodo aceitar determinadas indulgências. Isso pode levá-lo, ainda, à barra dos tribunais. Só com fortíssimas garantias de ser amnistiado o Savimbi aceitaria determinados “consensos”.

JN – E quanto à opinião pública angolana?

NP – Depois de tantos anos, o povo angolano está saturado, já não aguenta mais guerras. Se o Savimbi cumprir em aspectos realmente construtivos para Angola, ele poderá, ainda, conquistar muita popularidade junto dos vários grupos sociais. 

 RESSENTIMENTOS 

JN – Para si, Miguel NZau Puna, que tão bem conhece Jonas Savimbi, é um dado adquirido que ele poderá aceitar a vice-presidência adjutória de José Eduardo dos Santos?

NP – São duas vice-presidências. Se fosse apenas uma, é possível que Savimbi “vergasse” um pouco. Mas, duas vice-presidências…? A UNITA é bem capaz de indigitar alguém, um outro dos seus dirigentes, quando no seio do partido terminarem os debates sobre o assunto. É preciso ver, também, que Jonas Savimbi não vai querer abandonar o partido e a força militar. São duas coisas importantes para o Savimbi. Ele é um político, mas a força armada, para Savimbi, é uma forma de implementar a política partidária. Savimbi prefere continuar no partido e preparar-se, assim, para as futuras eleições. E ele também calcula que os acantonamentos irão, em parte, debilitá-lo.

JN – Uma leitura em termos absolutos: por que é que Jonas Savimbi não se modera? Ambição? Complexos? Ressentimentos?

NP – Há, pelo menos, dois estigmas nucleares. Primeiro: Savimbi sempre dizia, desde os tempos de Kinshasa, que os angolanos do Norte sempre nutrem um complexo de superioridade; porque os angolanos do Sul, nomeadamente os ovimbundos, foram levados para as plantações de café do Norte. Eu tive de lembrar-lhe, um dia, que isso não está certo. Quem arrastou para as plantações do Norte os angolanos do Sul foi o colonialismo português. Segundo: Savimbi costuma dizer: “Eu lutei contra os portugueses, contra os russos, contra os cubanos, e agora vou ficar sem o poder em Angola?!”. Savimbi, quem sabe, talvez se torne um pouco moderado. Mas essa moderação, por aquilo que eu conheço dele, não deve significar uma mudança!.

UNITA E SWAPO TIVERAM OS MESMOS ACAMPAMENTOS! 

Na presença de Miguel N’Zau Puna, em Pretória, durante uma recepção oficial, Peter Botha, então presidente sul-africano, voltou-se para Jonas Savimbi e justificou-se: “Tirarmos o Nelson Mandela da prisão? Se o fizermos, não tarda muito estaremos nós próprios no lugar dele. Atrás das grades!”.

Savimbi teria sugerido a Peter Botha, durante a conversa, a libertação “imediata” de Mandela. O episódio, naturalmente, ocorreu há alguns anos. N’Zau Puna tentava, assim, convencer o enviado do JN da bondade “ideológica” das relações de Savimbi com o regime do “apartheid”. O que, deveras, não conseguiu. Bastaria reflectir sobre o que o antigo secretário-geral da UNITA nos disse sobre o “carácter” das relações de Savimbi com os americanos: “Ele está muito agradecido aos Estados Unidos porque foi deles que recebeu as armas para se opor aos aviões e aos tanques do MPLA. Não esquece os grandes investimentos dos americanos. E, agora, ele espera que os seus amigos republicanos reapareçam no poder, voltem à Casa Branca!”.

Para Savimbi, os “bons” são sempre, e só, aqueles que o ajudam.

Savimbi, como quer que seja, desde muito cedo evidencia uma considerável desenvoltura nas relações internacionais, dentro e fora do Continente Africano.

Aprisionado na Zâmbia (pelo regime de Kaunda) no tempo da guerra colonial, Savimbi contou com os bons ofícios de Nasser, que lhe deu assistência no Cairo. Entretanto, na Tanzânia, regressado da China, Savimbi conhece o pessoal da SWAPO (Namíbia).

A SWAPO tinha escritórios em Dar-es-Salam. Era o início de um “processo” colaboracional que, hoje, leva Miguel N’Zau Puna a garantir-nos que “a UNITA se antecipou ao MPLA nas relações factuais com a SWAPO de Sam Nujoma”.

 JORNAL DE NOTÍCIAS – 

 Mas não é também um facto que a maior carga referencial na região contempla o binómio MPLA-SWAPO?

NZAU PUNA – Está certo. Mas muito antes de se formar esse cenário MPLA-SWAPO, quando o Savimbi era secretário-geral da UPA-FNLA, e ministro das Relações Exteriores do “governo” do GRAE, já ele tinha entendimentos com a SWAPO. E, durante a luta de libertação nacional, na área do Cuando Cubango, praticamente os acampamentos dos guerrilheiros da UNITA e da SWAPO estavam geminados. Os homens da SWAPO iam combater nas envolventes da Namíbia e, depois, regressavam para junto da UNITA. A SWAPO recebia armas da OUA, a UNITA chegou a utilizá-las, quando precisou dessas armas como de pão para a boca. A tal ponto que os homens da SWAPO, o general Dimo, por exemplo, nos rotularam de gatunos!

JN – Mas, posteriormente, o MPLA monopolizou essas relações com a SWAPO e desempenhou, até, um papel histórico notável na independência da Namíbia.

NP – Das movimentações conjuntas UNITA-SWAPO em Luiana, Mucusso, Mutumbo, Chitembo, em corta-mato até Caiundo, cerca do Cunene, passou-se para outros cenários, outros tempos. Sem esquecer, ainda, que foi com a ajuda da SWAPO que o dr. Savimbi, regressado do “exílio” no Cairo, em 1968, conseguiu passar, através da Tanzânia e da Zâmbia, para o interior de Angola. Mas, enfim, as coisas mudaram. Depois do 25 de Abril em Portugal, fomos nós, UNITA, foi o próprio Savimbi quem levou os comandantes (da SWAPO) da Zâmbia para o Huambo (de avião). E eu próprio os levei para as zonas da Huila e Cunene. Quando o MPLA tomou as cidades e a UNITA voltou, em 1976, para as matas, a SWAPO naturalmente não pôde acompanhar-nos. Ficou lá e consolidou as suas relações com o MPLA. Finalmente: o corte de relações entre as partes foi quando a SWAPO verificou que a UNITA tinha relações com a África do Sul!

 O PRÓPRIO SAVIMBI “DAVA AULAS” PARA DIVULGAR MAO, MARX E ENGELS 

“As ideologias que nós aprendemos”, em Angola, sublinha Miguel N’Zau Puna, “são ideologias importadas”. Um juizo-timbre que o antigo secretário-geral da UNITA aplica, sem distinções, aos históricos movimentos de libertação angolanos. Para concluir: “Então, é necessário voltarmos a ser nós próprios, empregarmos uma nova filosofia agregativa, no essencial, de todos os angolanos”.

A UNITA, recorda N’Zau Puna, “lutou contra aquilo que nós chamávamos o social-imperialismo de russos e cubanos”. Porém, já depois de se reconhecer numa organização forte, o movimento de Jonas Savimbi começou a ser percorrido, internamente, por sentimentos “divisionistas”.

Questões “regionalistas”, talvez diferenças etnoculturais – os bienos, os umbundos, etc, etc. Savimbi e outros, como ele, naturais do Bié, detinham o poder. “Havia uma clara rivalidade entre os do Bié e os do Huambo”, diz ao JN o “histórico” Miguel N’Zau Puna.

Corria, no seio da UNITA, que os do Huambo “tinham a presunção de se destacarem como intelectuais”. O mais importante, porém, é que Jonas Savimbi ficou com as mãos suficientemente livres para vender, no exterior, a imagem de um anti-comunismo inabalável. A palavra de ordem: “Nós somos contra os comunistas do MPLA!”.

 JORNAL DE NOTÍCIAS – 

 Savimbi convenceu, com o “slogan”, os sul-africanos?

N’ZAU PUNA – Não só os sul-africanos como, também, os americanos. Mas, no interior da UNITA, preponderavam de facto as práticas maoístas. Jonas Savimbi tinha sido bem recebido na China, onde treinou alguns quadros em técnicas de guerrilha. E logo irrompeu uma máxima no funcionamento interno da UNITA: “Não se pode combater os marxistas sem conhecer a teoria marxista!”. O próprio Savimbi dava aulas num centro de formação que ele mesmo implantou. Aprendíamos o marxismo-leninismo em coabitação com o maoísmo.

JN – Savimbi cultivava isso com fervor?

NP – Além dos livros, em quantidade e qualidade, Savimbi tinha, bem à vista de toda a gente, grandes fotografias de Karl Marx, Estaline, Lenine, Engels e Mao Tsé Tung. E o Savimbi mesmo dava aulas, era o professor: marxismo-leninismo, o marxismo dialéctico, o marxismo histórico. A nós, companheiros, ele dizia: “Eu sou comunista, mas se algum de vocês for lá para fora divulgar, eu vou gritar que é tudo mentira!”. E o mesmo Savimbi afiançava-nos: “Quando vou à África do Sul, isto é ouro! Quando vou para os Estados Unidos, é ouro, também!”.

JN – Se eu questionasse, agora, Jonas Savimbi, como é que ele se definia?

NP – Ah, neste momento Savimbi não aceitaria identificar-se como maoísta, marxista-leninista, ou simplesmente comunista… Ele diria que é social-democrata. Savimbi iria utilizar consigo a mesma linguagem que o MPLA utiliza agora.

 Continua… 

About these ads

Deixe o seu comentário

Filed under História Ultramarina

Deixar uma resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s