Angola 20 Anos Depois (1)

 

UM GOLPE CAÍDO DO CÉU 

O 25 de Abril surpreendeu tudo e todos em Angola. Luanda vivia a vida cosmopolita de uma capital colonial, e só uma meia-dúzia de dias depois, em princípios de Maio, no Zaire e na Zâmbia, os movimentos de libertação reagem ao golpe militar em Portugal, com proclamações de continuação da luta até à independência total. Ironicamente, o golpe em Portugal haveria de conceder-lhes um protagonismo que estavam longe de ter conquistado.

 José Gomes 

As promessas de continuação da guerra com que o MPLA, a FNLA a a UNITA reagiram ao golpe em Portugal, diga-se em boa verdade, não tiravam o sono a ninguém.

Em 1974, a luta de libertação atravessava um período crítico: o Exército português controlava militarmente todo o território – as operações tinham cessado em 1972 e a livre circulação era um facto.

Após o surgimento, em meados dos anos 60, de actividade militar no interior – O MPLA abre em 66 a Frente Leste, a UNITA ataca Vila Teixeira de Sousa, na fronteira catanguesa, em fins de 65 -, os movimentos encontravam-se minados por profundas crises internas.

Neto mandara fuzilar, dois anos antes, vários comandantes no Leste, após a revolta dos Bundas, e o movimento está recuado na Zâmbia, envolvido num debate interno para a revitalização daquela frente. Chipenda proclamara no ano anterior a cisão, em protesto contra a assinatura, por Neto e Holden Roberto, do inesperado acordo para a criação do Conselho Supremo para a Libertação de Angola.

Mais tarde, já em 74, mas ainda antes do 25 de Abril, virá a surgir uma outra facção, a Revolta Activa, propondo amplo debate para a redefinição da estratégia da luta de libertação.

Pelo lado da FNLA, as coisas não estavam melhores. Apesar de se saber que o movimento, com apoio de Mobutu, estava a formar no Zaire um exército de 9.000 homens, treinado por instrutores chineses e bem armado, Holden Roberto estava precisado de quadros dirigentes. Mandara fuzilar, após a revolta de Kinkuzo, no Zaire, em princípios de 72, dezenas de oficiais do seu Estado-Maior, e vários outros haviam fugido para Brazzaville.

A UNITA encontra-se no interior, abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida.

 GUERRA ESQUECIDA 

Em Luanda, em 74, os combates eram uma coisa longínqua, que a cosmopolita vida na capital fazia ainda mais remota.

“À medida que as pessoas se integravam, a ideia da guerra era uma ideia longínqua”, recorda o pró-reitor da Universidade do Porto, professor Nuno Grande, na altura vice-reitor da Universidade de Luanda.

“Como as pessoas estavam longe dos focos de guerra, adormeciam um pouco em relação à situação em que se vivia”, conta.

O professor recorda no entanto que a capital angolana por pouco não foi abalada por uma operação da guerrilha. “No Natal de 73, foi desactivada uma operação de guerrilha urbana que estava a ser preparada por gente da FNLA, dentro da cidade de Luanda. As pessoas não tiveram muita consciência disso, mas eu, porque estava ligado à Universidade, tive conhecimento pelos canais oficiais que uma das acções seria contra o próprio hospital universitário”.

A preparação dessa acção foi contudo descoberta.

No geral, o dispositivo militar da administração colonial era na verdade muito eficaz, reconhecem hoje alguns dos que naquela altura estavam do outro lado.

O Exército, as tropas especiais africanas treinadas pela PIDE/DGS, os Flechas, a polícia política, forças militarizadas e as milícias da Organização Popular de Vigilância e Defesa Civil de Angola estabeleciam no terreno um controlo a que dificilmente escapavam os movimentos da guerrilha.

Estes faziam contudo incursões através das fronteiras de Brazzaville e da Zâmbia, e havia zonas perfeitamente demarcadas onde já se sabia que tudo podia acontecer.

Aí por volta de 1965, conta Nuno Grande, nos Dembos e no Moxico a guerrilha fez muita mossa. “Cabinda e o Leste eram sítios de onde nós, os médicos do Hospital Militar, sabíamos que os feridos vinham sempre muito maltratados”.

Em Cabinda, onde foi enviado para investigar um surto de febre amarela, “havia muitos focos, com grande número de mortos. Lembro-me que, numa distância de 200 quilómetros, os comandantes das companhias que estavam ali aquarteladas diziam-me: “Temos um morto por quilómetro”. Havia 200 mortos entre as duas companhias, o que era um número considerável.

“Bem sei que estavam ali dois anos, mas a guerrilha era muito mais efectiva em Cabinda, porque as fronteiras com o Congo-Brazzaville eram muito permeáveis. Eles faziam as operações, deixavam as coisas armadilhadas, e iam embora, nem sequer assistiam aos efeitos. E dava-se conta, no Hospital Militar de Luanda, quando alguém vinha de Cabinda, pelos maus tratos…”, conta.

Por cá, era ler os comunicados militares que diariamente o Ministério da Guerra mandava publicar nos jornais. “O Serviço de Informações Públicas das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na Província de Angola, os seguintes militares:” e seguiam-se os nomes de mais uns tantos que, naquele ano, entre a noite de Natal e a de fim de ano, não iriam aparecer na TV, a desejar festas felizes.

Na capital, muita gente conhecia pessoas ligadas ao MPLA. “A FNLA tinha também alguma implantação, a UNITA não me recordo de ter grande impacto em Luanda – teria provavelmente mais para leste, mas em Luanda não”, recorda o professor.

“Eles trabalhavam em Luanda, tinham frequentado as escolas. As pessoas lembravam-se de alguns que tinham saído de lá nos anos 50 e 60. Desde o dr. Agostinho Neto, que tinha saído de Luanda, onde era enfermeiro, para estudar Medicina, e depois não voltou, até àquele que havia de dar o nome ao hospital universitário, o irmão do Miguel Boavida, o Américo Boavida, que foi estudante, aqui no Porto, no meu tempo. Era ginecologista em Luanda, e, portanto, muitas pessoas o conheciam”.

“Referiam-se a eles com simpatia, curiosamente. Mas, ao mesmo tempo, eles representavam as forças que lutavam contra Portugal, e havia uma certa ambiguidade – as pessoas lembravam-se de quem eram conhecidas e amigas, mas ao mesmo tempo tinham a reserva inerente a alguém que sabe que em algum momento eles poderiam desestabilizar tudo”, recorda Nuno Grande.

   APANHADOS DE SURPRESA 

A 25 de Abril de 1974, Agostinho Neto encontrava-se no Canadá, mantendo contactos com a companhia petrolífera norte-americana Gulf Oil, em busca de apoio ocidental para o MPLA. Não hesitou em classificar o golpe em Portugal como um ajuste de contas entre facções do regime.

Os três movimentos, aliás, em comunicados tornados públicos nos dias imediatos, não escondiam as suas reservas.

A FNLA, em comunicado publicado a 30 de Abril, apelava à continuação da luta do povo angolano até que “a justiça universalmente reconhecida, o bom-senso e o direito à livre determinação” saíssem vitoriosos.

No mês seguinte, o líder do movimento, Holden Roberto, admitia já negociações com Portugal, com uma condição: o reconhecimento do direito à autodeterminação e à independência.

Pela mesma altura, já Agostinho Neto ajustara a opinião sobre o golpe militar em Portugal, mas mantinha a determinação de lutar até que Portugal se comprometesse a conceder a independência, a partir do que poderia ser iniciada a negociação sobre a transferência do poder. Pelo caminho, rejeitava categoricamente qualquer federação com a antiga metrópole.

A 21 de Maio, a UNITA alinha pelo mesmo tom. Mas, segundo o jornal “Província de Angola”, Jonas Savimbi teria já acordado com as autoridades portuguesas um cessar-fogo. A 13 de Junho, Savimbi tornava públicas, no mesmo jornal, as suas posições sobre a questão, propondo um período de preparação política do povo para a independência, com a participação dos três movimentos, e a realização de eleições.

 AMBIGUIDADE EM LISBOA 

De Portugal, a Junta de Salvação Nacional ordenara o regresso do então governador de Angola, Santos e Castro, e nomeara em seu lugar o então tenente-coronel Soares Carneiro.

Da prisão de Luanda são libertados 85 presos políticos, e da de São Nicolau, em Moçâmedes, 1.200. A PIDE é formalmente extinta, mas os agentes integrados num novo serviço de informações, o Comando da Polícia de Informação Militar.

O general Costa Gomes chega na primeira semana de Maio a Luanda, e afirma em conferência de imprensa que o combate contra os movimentos de libertação continua, até que estes deponham as armas e aceitem uma solução política.

“Nenhuma província, nenhum grupo, nenhuma raça, terão permissão para impor uma solução que não tenha passado pelo crivo de um teste democrático”, disse o general, acrescentando, em resposta a dúvidas manifestadas pelos jornalistas, que “é nossa intenção continuar a luta contra as guerrilhas, e essa posição manter-se-á até que os guerrilheiros aceitem a nossa oferta para depor as armas e se apresentem como um partido político legal”.

De regresso a Lisboa, Costa Gomes, que em Luanda manifesta muitas e públicas dúvidas quanto ao que “muita gente pensa e tem propagado” sobre o apoio da população angolana aos movimentos de libertação, afirma que “todos os grupos humanos dessa sociedade luso-tropical” lhe haviam dado uma grande alegria, a da “esperança da realidade efectiva da autodeterminação autêntica num quadro variável dum portuguesismo pluricontinental”.

Três dias após o 25 de Abril, o general Spínola já fazia questão de separar as águas entre autodeterminação e independência: a autodeterminação é o direito de um povo livremente escolher o seu destino, a independência imediata a aceitação duma vontade que não seria a desse povo.

Mário Soares, recém-regressado do exílio e já de viagem a Bona, considera “importantes” as palavras do general, mas quando lhe perguntam se é favor de uma federação ou da independência, responde: “Sou abertamente pela independência, e, na minha opinião e na do meu partido, é necessário negociar urgentemente com os movimentos de libertação”.

Ao tomar o lugar de que o almirante Tomás fora apeado, duas semanas depois, a 15 de Maio, Spínola diz para a rua, que berra pelo fim da guerra colonial e a independência imediata para as colónias: “Os nossos esforços centrar-se-ão no restabelecimento da paz no Ultramar, mas o destino do Ultramar Português terá de ser decidido por todos os que àquela terra chamaram sua”.

  A QUEDA DO GENERAL 

Mais tarde, num encontro com o presidente do Zaire, Mobutu, na ilha cabo-verdiana do Sal, discute esse destino. A conversa foi rodeada do maior segredo, e o jornal “República” haveria muito mais tarde, em Outubro de 75, já depois da queda em desgraça do general, de noticiar que fora discutido um complexo acordo de mútuos benefícios para os interesses portugueses e zairenses, nos quais se incluiria uma inédita Federação Zaire-Angola-Cabinda, com Mobutu a presidente e o líder da FNLA a vice-presidente.

Na notícia, é difícil distinguir entre a verdade e a propaganda da época, mas não se andará longe da verdade se se disser que dos planos do general constava a aposta em Holden Roberto, o homem dos americanos, de Mobutu e, noutro tabuleiro, dos chineses, para contrariar o MPLA.

Na falta de uma política clara para o problema colonial, a incerteza dominava mesmo os sectores mais informados da sociedade luandense. Os telexes das agências noticiosas dão conta desse estado de espírito, como um despacho da Reuter publicado pelos jornais portugueses a 4 de Maio, segundo o qual brancos e africanos moderados se manifestavam favoráveis à criação de um Estado multirracial e à ideia de uma qualquer federação com a metrópole.

Em Junho, o general Silvino Silvério Marques, que fora já governador de Angola entre 1962 e 1966, os anos imediatamente seguintes ao início da luta armada, é nomeado de novo para o cargo. Quando o avião aterra em Luanda, há manifestações no aeroporto contra o general, que permanecerá no entanto na capital angolana até fins de Julho, altura em que, após o assassínio de um taxista branco num musseque, ocorrem os primeiros distúrbios.

  O ÚLTIMO DIA 

Na tarde do dia 10 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi pela última vez arreada no Palácio do Governo e na fortaleza, dobrada e redobrada. O alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, ao qual coube a ingrata tarefa, proclamara horas antes a independência de Angola.

Quatrocentos e noventa e dois anos depois das naus portuguesas ali terem largado ferros, o último representante da soberania portuguesa abandonava a jóia do ex-Império, e partia, “sem cerimonial, mas de cara levantada”, rumo à base naval da ilha de Luanda.

Ao largo, na baía já abandonada por barcos carregados até à borda de multidões e contentores, a fragata “Roberto Ivens” escoltava o “Uíge” e o “Niassa”, com as máquinas prontas para, pela última vez, zarparem para Lisboa.

Uma semana antes, a cidade branca acabara de esvaziar-se. A ponte aérea, organizada com o apoio de países estrangeiros, retirara de Angola, no meio de indescritíveis cenas de pânico e confusão, quase meio milhão de portugueses.

As estátuas dos imortais portugueses jaziam apeadas, no sítio havia só os pedestais, já pintados com o vermelho-negro do MPLA.

Para trás ficara a companhia de pára-quedistas, o almirante e uma meia-dúzia de funcionários que agora, no meio de grande e inútil aparato militar, se dirigiam para o porto.

Polícias angolanos, de farda azul, ganharam de imediato as posições desocupadas. Às janelas do palácio, alguns criados negros assistiram à saída de blindados e “Berliets”.

Na baixa luandense, nem isso. Cortadas por fuzileiros, as ruas estavam desertas.

  O ADEUS PORTUGUÊS 

No imponente Salão Nobre do Palácio, o alto-comissário fizera de manhã, perante um batalhão de jornalistas, um breve deve e haver daqueles meses de brasa.

“E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se”.

E arrematou responsabilidades: “A única recriminação que poderá aceitar é a de ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do acordo do Alvor”.

Para o almirante ingenuidade, para Neto, que à custa de sangue e suor conseguiria proclamar-se no dia seguinte presidente em Luanda, outra coisa. “Quanto a Portugal, o desrespeito dos acordos do Alvor é manifesto, entre outros, no facto de sempre ter silenciado a invasão de que o nosso país é vítima por parte de exércitos regulares e de forças reaccionárias (…) que teimou em considerar como movimentos de libertação, tentando empurrar o MPLA para soluções que significariam uma alta traição ao povo angolano”.

Leonel Cardoso não pode responder, não estava presente no palanque de Neto, cumprira a promessa feita em confidência um mês antes a Cáceres Monteiro, enviado de “O Jornal”: “Se um movimento não quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com os outros dois. Só com um, eu não tomo parte nas cerimónias. A um, eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse movimento”.

No Campo da Revolução, no Sambizanga, o povo, na véspera, condenara ao enforcamento os espantalhos dos presidentes da FNLA, Holden Roberto, e da UNITA, Jonas Savimbi. Mas nessa noite, as palavras do líder do MPLA, agora presidente de Angola, perdiam-se no barulho dos disparos de faplas festejando, e, mais ao longe, de um fragor de explosões.

Ao largo de Cabo Ledo, um submarino soviético estava para o que desse e viesse, pronto para dar fuga a Neto.

A FNLA estava a 25 quilómetros, no Caxito e Quifangondo, e Holden Roberto, que celebrava a independência em Carmona, hoje Uíge, encerrara o discurso às tropas com um “até logo, em Luanda”. Vinte e quatro horas depois, à meia-noite do dia 11, não em Luanda, mas em Ambriz, proclamava a República Popular e Democrática de Angola.

No Sul, o MPLA acabara de perder Sá da Bandeira, Moçâmedes, Porto Alexandre, Benguela e o Lobito, e a UNITA celebrava naquela que viria a ser a sua capital, Nova Lisboa, depois crismada Huambo.

    RECONHECIMENTO ADIADO 

Em Lisboa, ao Verão Quente sucedia um Outono escaldante, o 25 de Novembro estava à vista. O ministro da Cooperação, Vítor Crespo, cancelara na madrugada de dia 10 a partida para Luanda. Um longo e polémico Conselho de Ministros, terminado a altas horas dessa noite, para que tinham sido convocados, a título excepcional, os secretários-gerais dos três partidos com assento no Governo – PS, PPD e PCP -, acabaria por reafirmar apenas o espírito do acordo do Alvor, e a não ingerência de Portugal nos assuntos internos do povo angolano, defendida pelo PS e o PPD, contra a posição do PCP, segundo o qual o MPLA era o único representante legítimo do povo angolano.

Convocado o Conselho da Revolução pelo presidente da República, general Costa Gomes, as divergências mantiveram-se.

Otelo faltou, zangado com os moderados, e Rosa Coutinho, ex-alto-comissário em Angola, num telegrama de felicitações a Neto, pedia desculpa por só mandar o coração a Luanda, que o resto era preciso aqui.

O avião da TAP, que levantara para a capital angolana com Palma Inácio, da LUAR, Carlos Antunes, do PRP, José Manuel Tengarrinha, do MDP/CDE, Pereira de Moura, do Conselho Mundial para a Paz, e delegações de vários partidos comunistas estrangeiros, foi mandado regressar a 30 minutos de Luanda.

Ao aterrar na Portela, às 5,30 horas, soube-se que a ordem de regresso fora do ministro dos Transportes, Valter Rosa, e o argumento que Luanda estava a ser bombardeada. Horas mais tarde, o aparelho, fretado pelos Transportes Aéreos de Angola, levantava de novo com o mesmo destino.

Às seis da manhã de 22 de Fevereiro do ano seguinte, Melo Antunes anunciava o reconhecimento por Portugal do Governo angolano. O Brasil fora o primeiro país a reconhecê-lo, no próprio 11 de Novembro, Portugal era o 88.o.

  O GRANDE PROJECTO “LUANDA-SUL” 

Não há dinheiro, mas o projecto, ambicioso e chamativo, já embalou e começa a convencer: a URBANIZAÇÃO DE LUANDA-SUL. Nem Banco Mundial, nem BAD (Banco Africano de Desenvolvimento), nem UNESCO – nada! Este programa de desenvolvimento urbanístico de Luanda nutre-se do seu próprio lenho: vende os terrenos que lhe são afectos (para casas de renda alta) e desse modo agiliza outras duas vertentes de grande urgência: as casas “económicas” e as casas “sociais”. Ao cabo de 20 anos de independência, Luanda enta revitalizar os pulmões e lavar a cara. Mas, claro, não vai ser fácil. E não é trabalho para cardíacos…

   Luís Alberto FerreiraEnviado JN 

Luanda, sabiam?, tem cerca de três milhões de habitantes!!!

A partir de 1975, semana a semana, dia a dia, a capital de Angola viu crescer, de modo avassalador, o número de utentes das suas, hoje, devassadas e corroídas infra-estruturas. Montadas para servir pouco mais de 400 mil pessoas. Hoje, positivamente a rebentar pelas costuras, a cidade de Luanda é vítima de todas as erosões possíveis. Sempre são 20 anos velozes e dilacerantes. Desde a proclamação da independência, com o saudoso presidente Neto na tribuna do Largo 1.o de Maio. Ele, o dr. Agostinho Neto, aí por alturas de 1977, 78, 79, ano em que morreu, usava deslocar-se, por vezes, discreto e sorrateiro, a certos recantos de Luanda, para ver e crer. Quando começaram a manifestar-se, na pele da grande cidade africana, as primeiras feridas preocupantes. Já passaram, pois, cinco lustros – durante os quais Luanda não cessou de crescer e de receber gente, gente, mais gente, sempre mais gente. Um fenómeno visceral da guerra. Em vários capítulos. Depois de 1975, uma onda imparável, num gotejar sincopado. Depois das eleições de 1992, nova onda de deslocados, refugiados, mutilados – homens e mulheres, com as suas crianças, camponeses, operários, funcionários, militares tresmalhados, do Norte, do Centro e do Sul.

Luanda aguentou tudo isso e hoje, exausta, reconhece-se em tudo isso. Guerra de libertação, independência, guerras pontuais fratricidas. É uma cidade, apesar de tudo, estoica, lutadora, perseverante. Uma cidade rara. Ulcerada e destruída ali, refeita e repintada acolá. E a gente reconhece-a, sempre, até nos inesperados labirintos, nos esconsos de terra batida do bairro dos Coqueiros. As infraestruturas de Luanda, estripadas, são ainda as mesmas de 1974, quando a cidade acolhia cerca de 400 mil almas. As mesmas! E os novos muceques, nas imediatas periferias são, agora, de betão! Construções ao Deus dará, numa impressionante sequência de sofreguidões, improvisos e clandestinidades sem clandestinidade nenhuma.

Há edifícios de apartamentos, noutras áreas de Luanda, cuja infraestrutura comporta, na totalidade, fossas sépticas! Edifícios com uma média de 20 apartamentos por cada andar. Os rebentamentos em canalizações agudizam, no quotidiano luandense, o problema da rede de esgotos, talvez o mais sério de todos. O governador provincial de Luanda, Justino Fernandes, disse ao JN que a maior preocupação, neste momento, incide no esforço a realizar antes da eclosão das próximas chuvas. A malha de drenagem está a ser objecto de obras estrategicamente definidas, em vários pontos de Luanda. São obras avulsas, mediante contratos severamente estabelecidos.

É que, francamente, não há dinheiro, confessa Justino Fernandes. E, por isso, tudo é negociado palmo a palmo, discutido com a Direcção de Economia. “Se der uma volta por Luanda”, sugere o governador provincial, “vai certamente poder observar pequenas obras em curso, um pouco por toda a cidade”. Por exemplo, estão a ser desobstruídas as mais de três mil sarjetas da capital. Obras encaixadas num “sistema” de programa a programa, passo a passo. Tem de ser assim porque, de facto, não há, no verdadeiro sentido do termo, um orçamento próprio. O grande programa “Vamos salvar Luanda”, desenhado, em tempos, com algum entusiasmo, chocou com a barreira impeditiva da falta de meios financeiros. Para recuperar Luanda, segundo cálculos de 1992-1993 (na altura revelados, também, ao JN), seriam necessários cerca de 400 milhões de dólares. Agora, a política do governo provincial é mesmo arregaçar as mangas e caçar com gato, como sentencia o povo português. Programa… caderno de encargos… Programa… caderno de encargos… E Luanda lá vai cuidando das suas feridas profundas.

  PEDRADA NO CHARCO 

Justino Fernandes não tem, de facto, mãos a medir, nem tempo para ir à varanda e contemplar a algazarra popular dos transportes colectivos no Largo da Mutamba, lá mais em baixo. O governo provincial de Luanda está instalado no belo e histórico edifício da antiga Câmara Municipal. O imóvel, diz Justino Fernandes ao enviado do JN, é “património mundial”. Nada mais atinado. A estrutura de ferro foi, reitera o governador de Luanda, concebida por Gustavo Eiffel, o mesmíssimo que ofereceu engenho à ponte de D. Maria Pia, no Porto. Bem, e “Luanda-Sul”? O que vem a ser, afinal, esse projecto de que tanto se fala na capital?

JUSTINO FERNANDES – Luanda-Sul é um programa de desenvolvimento urbanístico que visa descongestionar o casco urbano da província. Um programa que criará condições para a implantação de novos bairros residenciais. Como pode ver, Luanda está hoje prensada por uma grande rede de muceques de betão: não houve, nestes anos todos, a possibilidade de acompanhar de uma forma organizada a construção de moradias. O resultado é este: muceques de betão! Quando, noutras partes do mundo, são bairros de lata – chaparias, entabuados e outros materiais, facilmente removíveis. Mas, se fizermos as contas, concluimos que a construção clandestina, em betão, fica tão onerosa como se a obra surgisse em terrenos urbanizados a rigor. Com o programa Luanda-Sul vamos, pois, começar a fazer casas de uma forma ordenada. Vamos meter na ordem a construção, em Luanda. Isto é fundamental numa metrópole com qusse 3 milhões de almas!

JN – Por onde se estende essa nova urbanização?

JF – Estende-se para sul da cidade de Luanda. O programa está dividido em três partes, três segmentos onde os novos bairros serão implantados. O primeiro segmento é a plataforma que sai do Futungo para a Barra do Quanza e vai, por Benfica, até à zona alta do Golfe. Será a vertente das casas de renda alta. Para gente com recursos. Vendemos os terrenos, aí, em direito de superfície. E o horizonte temporal é de noventa anos.

JN – Varre-se qualquer possibilidade de especulação imobiliária…

JF – De forma absoluta. Veja: com o dinheiro que vamos arrecadar (na venda dos direitos de superfície), criamos infraestruturas nessa vertente (casas de renda alta) e também nas zonas destinadas aos bairros económicos e aos bairros sociais. Respectivamente: na zona frontal ao Golfe (bairro emblemático da macrocefalia luandense), ou seja, na vertente Camama-Sepú, e na zona de Viana-2.

JN – A água, em Luanda, é outro dos bicos de obra tormentosos. Isso não vai “amordaçar” o projecto Luanda-Sul?

JF – Já estamos a instalar uma conduta de cerca de 25 quilómetros que abarcará os três segmentos de casas habitacionais.

JN – Calculo as expectativas da população de Luanda em relação às “casas sociais”…

JF – Ao princípio, as pessoas pensavam que o projecto de urbanização iria contemplar, simplesmente, as pessoas com dinheiro, só casas de renda alta. De facto, não é assim. Empregamos o dinheiro, das pessoas que podem comprar em direito de superfície, na criação de infraestruturas para as casas e bairros destinados às pessoas de menos recursos. Começámos, já, a construção das 2.500 casas que, no projecto Luanda-Sul, figuram como expressão de um “compromisso assumido”.

   LUANDA PATRIMÓNIO MUNDIAL 

Portanto, em Luanda, 400 mil habitantes em 1974 e quase 3 milhões em 1995! Uma improcedência “fatal” para os equilíbrios em jogo: urbano-arquitectónico, ambiental, funcional e cívico. Ao longo destes últimos 20 anos, os anos de independência, este enviado do JN esteve em Angola tantas vezes quantas redondeiam o dobro desses cinco lustros do exercício da soberania angolana. Muitas, muitíssimas coisas mudaram em Luanda nestes 20 anos. Para pior, a maior parte. Para melhor, muito melhor, a parcela menos vultosa. Vamos ver o que é que mexe na caleidoscópica cidade de Luanda.

  Luís Alberto FerreiraEnviado JN 

A muito pré-jacente deterioração dos edifícios comerciais e residenciais do centro de Luanda ilustrou, desde 1977, os relatos dos jornalistas que visitam Angola. A “baixa” foi (prelúdio de sobressalto em 1975), rapidamente invadida por gente fugida dos muceques periféricos ou mesmo de outros pontos do país. Aos poucos, este cenário altera-se. Porém, edifícios como o do velho Hotel Luanda, o da velha “fábrica do gelo”, e outros, residenciais, na fundamental Rua de Avelino Dias, estão irreconhecíveis. Outros imóveis, entretanto, conheceram cuidados de manutenção ou foram beneficiados. Nem tudo está mal, portanto. A Avenida Marginal (manutenção e higiene) está muitíssimo bem. A Cidade Alta, o Maculusso, alguns trechos da Maianga, o Bairro de Alvalade, souberam ou puderam defender-se. Seja como for, a recuperação do parque imobiliário de Luanda irá, sempre, traduzir-se num grandioso investimento financeiro, tecnológico e humano!

  A RUA DIREITA 

Durante a entrevista que nos concede, em Luanda, o governador provincial põe o acento tónico na momentosa questão dos velhos edifícios da “tipologia” urbana. Justino Fernandes continua esperançado em obter, no estrangeiro, talvez nomeadamente em Portugal, os apoios indispensáveis. Empresários angolanos e estrangeiros já se disponibilizaram. O que, por enquanto, é pouca coisa. O governador inclui, entre as prioridades, a recuperação e manutenção da histórica Fortaleza de S. Miguel. E, entretanto, vai requerer, nas altas instâncias angolanas, que a velha Rua Direita de Luanda volte a chamar-se assim. “Faz parte do acervo histórico da cidade”, diz Justino Fernandes, ao JN, a propósito da localização, na Rua Direita, de edifícios carismáticos: o singular “palácio de ferro” e o palácio de dona Ana Joaquina. “Património mundial”, sublinha o governador provincial de Luanda. Estatuto revigorante que deveria atribuir-se também a toda a zona da Cidade Alta e aos edifícios da velha matriz familiar do Bairro dos Coqueiros, do Bungo, do Casuno e da Rua da Pedreira.

  “LUANDA-SUL” 

É o tema central da conversa que o governador provincial sustenta com o enviado do JN: Luanda vai crescer para sul, com os novos bairros, mais casas para habitação. A Empresa Provincial de Projectos, em conjunto com uma multinacional, será o embrião de uma empresa mista (dotada de regime especial aduaneiro, fiscal e cambial) que deverá acompanhar outras iniciativas da “revitalização” urbana de Luanda. Entretanto, nos terrenos da nova urbanização “Luanda-Sul”, uma inovação se desenha: na construção das “casas sociais” vão participar (mão de obra) os futuros utentes das novas urbanizações. Muitos jovens, prevê o governador de Luanda, poderão iniciar-se, deste modo, como operários ou artífices no ramo da construção civil. E no tocante às “casas económicas”: “Com base no programa distribuímos o talhão, entregamos o projecto e o usufrutuário passa, imediatamente, à construção da casa”, sintetiza, também, o governador provincial.

  NEGÓCIOS 

Os aviões que, saídos de Lisboa, pousam no aeroporto “4 de Fevereiro”, em Luanda, despejam constantemente médios e pequenos comerciantes em busca de negócios rápidos. Em Luanda, hoje, praticamente, pode comercializar-se um pouco de tudo, de muitíssimas coisas. E, como a necessidade, em qualquer parte, aguça o engenho, não há “negócios” que em Luanda se não façam. Mesmo assim, o tradicional comércio geral, com pequenas lojas, outrora espalhadas pela cidade, está longe de um regresso em força. Lojas de vestuário há algumas, sim. De porta aberta e no coração de Luanda. Abundam, isso sim, as lanchonetes. E os pequenos restaurantes. Como quer que seja, há uma grande distância ética entre os que fazem negócios a pensar, também, no que é importante para a nutrição e a saúde das pessoas, e os que simplesmente chegam a Luanda dispostos a sacudir a “árvore das patacas” da nova era. Sem, claro está, olharem a meios. Nesse aspecto, Luanda é um verdadeiro lodaçal.

  BANDIDAGEM 

Luanda é uma cidade particularmente perigosa. O repórter avança com um episódio sintomático. Ao terminar, por volta das 19 e 30, no Bairro Azul, uma longa entrevista com Miguel N’Zau Puna, antigo secretário-geral da UNITA, proponho-me agarrar nos equipamentos e dirigir-me, se possível em corrida, para os acessos à Avenida Neves Ferreira, de ligação à “baixa” luandense. O entrevistado, e anfitrião, lança as mãos à cabeça, horrorizado: “Vai a pé e sozinho? Por favor! Não pense que o deixo sair daqui nessas condições, os meus auxiliares vão conduzi-lo até ao hotel…”. E o deputado N’Zau Puna explicava o que eu, com efeito, já ouvira de outros luandenses: “Aqui, desaparecem pessoas sem deixar rasto. Não se trata somente de serem despojadas dos seus bens, até da própria roupa: as pessoas desaparecem, pura e simplesmente!” Enfim, o que é preciso, em Luanda como em toda a parte, é ter sorte. Umas vezes com “escolta” armada, outras vezes sozinho, aventurei pela cidade passos que me permitiram matar saudades e recolher elementos de reportagem.

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