Recordação de um Desastre

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Ferreira Fernandes
jornalista
ferreira.fernandes@dn.pt
Faz hoje 30 anos que perdi num dia, 27 de Maio de 1977, mais amigos do que em toda a vida. Perdi-os, mesmo, de morte. E eles morreram não como se morre num acidente, juntos, mas como quando os homens enlouquecem, de um e de outro lado. O Juca, o Neto, o Nado, o Zé, o China, o Gigi… Assim, com nome de miúdos, como éramos quando nos fizemos juntos. Uns morreram por serem “nitistas”, outros por serem “netistas”, mas isso não os merece. Eles foram muito mais, por isso os misturo, porque foi juntos que eles foram o que foram, jovens de coragem.
Dez anos antes, éramos todos adolescentes, e não éramos exactamente como a nossa geração luandense. Em finais dos anos 60, vivíamos num país colonizado, Angola, e só dizer o nome do nosso país fazia-nos brilhar os olhos. O Zé tinha 18 anos e ia à cadeia visitar presos políticos. O Neto distribuía livros proibidos. O Juca mandava medicamentos para os guerrilheiros que combatiam no Norte. Nessa altura estávamos juntos. Quando Marcelo Caetano foi a Luanda, em Abril de 1969, enchemos a nossa cidade de panfletos. Dizíamos neles: “Amanhã, Angola será melhor.”Dir-se-á, revolta vulgar em jovens. Não, não era. Por isso éramos poucos.

Não era comum dois rapazes, um negro e outro branco, baterem à porta da cadeia colonial do Cacuaco e anunciarem que queriam ver o Escórcio, preso político. Em fins de 1969, todo o grupo teve um duro destino. Uns exilaram-se, outros foram presos (Peniche, Tarrafal, São Nicolau) – nenhum pôde ficar a viver na sua bela e querida cidade.

Em 1975, Angola tornou-se independente, mas não se tornou melhor. A prova foi o 27 de Maio de 1977 – uma explosão fratricida no interior do MPLA. Ao China, que tinha sido guerrilheiro, nitistas (apoiantes de Nito Alves, uma facção do partido) foram buscar a casa; de passagem, levaram o Garcia Neto, que o visitava. Os corpos dos dois foram encontrados queimados. Os do outro lado, os netistas (da facção do Presidente Agostinho Neto), deram caça aos nitistas ou que assim eram tidos. O Nado, o Juca Valentim, o Zé Van-Dúnem, o Gilberto Saraiva de Carvalho, foram presos, quase sempre torturados, todos mortos. Como centenas de outros, mas falo aqui dos meus amigos.

Pergunto o que nos aconteceu e acuso-me e aos meus amigos. A nossa coragem nós emprestámo-la à ideologia e foi esta que nos matou – a alguns, fisicamente, naquele dia; a todos, por nos ter cegado. De nós, que tanto falávamos do futuro, não me lembro de nos ouvir falar da vida real. E, no entanto, o Juca devia ter sido o engenheiro que Angola precisa, o Neto seria o professor que ia dentro dele, o Zé, o chefe do que quer que seja, natural nele, tão superior, elegante e inteligente… Mas falhámos tudo e não foi só naquele dia.

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