Turcofilia, Turcofobia

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Eu gosto dos turcos, sou um turcófilo perplexo, consciente de que se pode ser coisas bem piores. Por isso me arrepia a turcofobia de Sarkozy. Quando diz que a Turquia não é coisa da Europa mas da Ásia, ele é mais húngaro do que francês, ou, se se quiser para os mais sofisticados, é mais franco do que francês.
Eu não sei o que de húngaro ficou em Sarkozy, cujo nome completo é Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsa, três nomes de santos, um dos quais o fundador da Hungria, mas há coisas que se colam à memória como se de sentimentos vagos se tratasse. Ora, na Hungria, mesquitas que hoje são igrejas católicas fazem parte da paisagem, como em Pécs. Nós, cá no nosso canto da Reconquista, só ficámos com as “mouras encantadas” e de há muito que os espanhóis substituíram a moirama no papel de inimigo principal, mas os húngaros estiveram bem dentro do Império Otomano, o suficiente para não se esquecerem.

Quanto aos francos, a história ainda é mais complicada. É verdade que os “francos” são para todos os muçulmanos que têm memória das cruzadas – e para muitos este é um factor de identidade entre Istambul e Meca – o inimigo que está ainda presente nas ruas da velha Jerusalém, nos portos do Levante, nas ilhas de fronteira como Rodes e Chipre. Mas também é verdade que, durante muito tempo, já em pleno declínio do Império Otomano, a França foi a entrada para a Porta, através de portos como Marselha. Foi também a França que forneceu alguns dos mais influentes orientalistas como Pierre Loti, que transformaram as veladas mulheres muçulmanas em ideais eróticos e tornaram o harém do Topkapi num destino turístico de primeira. Por isso, Sarkozy pode ter a “sua” história, mas a história tem sempre mais do que um caminho quando deixa de ser história e se torna presente.

Claro que a Turquia de hoje não é um país fácil, onde, olhando com olhos de ver, não escapa a ninguém a tensão religiosa nas zonas de atrito urbano como Istambul ou Ancara, a guerra sem piedade no Curdistão, os vários tráficos e tráfegos que a atravessam, os barcos que partem de Istambul para o Mar Negro, para Odessa, com os seus casinos flutuantes e o seu dinheiro suspeito, as máfias internacionalizadas que do interior da Anatólia se estendem para o Cáucaso, para os países da Grande Turquia mítica, o Azerbaijão, o Turquemenistão, a Ásia Central que fala variantes de turco, ou para o Sul, para o Curdistão iraquiano e para as cidades onde importantes minorias turcomanas funcionam como instrumentos da política externa do nacionalismo anticurdo no Iraque. Por essa Turquia difícil, violenta, dura, criminosa, pagam as minorias não-turcas, sacrificados ao nacionalismo ataturkiano, os curdos, os arménios, os cipriotas gregos que ficaram do lado errado, mesmo pequenas minorias étnicas muito antigas como os Laz, já que dos gregos que antigamente povoavam as terras da antiga Jónia, ou o dos impérios bizantino e de Trebizonda, já não sobra quase nada depois das “limpezas étnicas” feitas pela Sociedade das Nações, trocando os gregos da diáspora por turcos da Trácia.

Mas Istambul é uma cidade onde os cartazes do Partido Comunista partilham as paredes com slogans extremistas religiosos, onde uma boa dose de televisões internacionais voltadas para os turcos da emigração estão povoadas de cançonetismo pimba e de mulheres de vestidos mínimos, onde a dança do ventre prospera para turistas e locais e onde uma série vasta de jornais representa uma opinião pública efectivamente existente e plural. Algumas coisas só se podem pegar com pinças e risco, mas também é assim na Rússia com a Tchetchénia e nós olhamos para o lado. Nos cafés e restaurantes de Istambul, no meio das multidões de pessoas e de carros que atravessam o Corno de Ouro, nas casas ricas que bordejam o Bósforo, nos mercados de peixe junto das antigas muralhas romano-bizantinas, mas também na Anatólia onde não chegam os turistas, nas pequenas aldeias piscatórias do Mediterrâneo construídas de pedras de templos gregos e paliçadas junto ao mar, nas plantações de chá e de algodão do interior, nas estradas mortíferas onde os camiões ameaçam a vida de qualquer um, encontram-se sempre as faces e a vida que no interior de Trás-os-Montes, na Andaluzia, na Sicília e na Calábria reconhecemos como nossas. A Turquia é Oriente, é Ásia a mais de 90 por cento, mas é a parte mais europeia de toda a Ásia se deixarmos Israel de lado. E mais europeia também porque tem os olhos voltados para o lado de cá e não para o lado de lá. Para o lado do Ocidente e não para baixo, para Meca. E nisso, naquele lugar do mundo, com aquela religião, e com aquela história, é absolutamente excepcional.

Quando vemos as gigantescas manifestações a favor da laicidade, não apenas em Istambul, na Turquia da Europa, mas em Ancara, a capital política feita pela engenharia de Ataturk no meio da Ásia, nem sempre nos apercebemos da excepcionalidade do acto num país maioritariamente muçulmano. O ataturkismo pode estar tem crise eleitoral, com o ascenso de partidos em que a referência religiosa muçulmana é mais forte, como o de Erdogan hoje no poder, mas continua a ser uma poderosa força na Turquia, mesmo descontando o seu instrumento “legal”, o exército. Já várias vezes escrevi sobre a nossa fundamental ambivalência face à Turquia: aquilo de que gostamos na Turquia assenta num pilar daquilo que não gostamos. Explico-me: a laicidade do Estado turco, de que gostamos, apoia-se nos poderes constitucionais de interferência das Forças Armadas turcas na política civil e no nacionalismo pan-turco. Queremos uma coisa sem a outra e isso para já é impossível. Mais: só será possível a prazo se os turcos continuarem a olhar para a Europa como modelo para o seu país, para a sua economia e para a sua sociedade, como queria Ataturk e, mal ou bem, ainda quer Erdogan. E, para isso, precisam de esperança e jogo limpo, não de obscuras reticências, até porque a União Europeia está longe de ser hoje o clube das democracias ricas consolidadas a ocidente. Está mais “turca” do que parece. Porque, se a Turquia é coisa da Ásia, podem tirar o cavalinho da chuva que acabarão o Iraque, o Irão e a Arábia Saudita por serem coisas da Europa mais do que o que já são. (No Público de 12 de Maio de 2007)

José Pacheco Pereira

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