Sócrates na sua nuvem

Pulido Valente 

 Os governos podem viver na fantasia, os portugueses não podem

Para o Governo, muito mais vexatório do que as gaffes de Manuel Pinho foi o inquérito do Gabinete de Informação e Avaliação do Sistema Educativo, que anteontem este jornal resumiu. O Gabinete, com um nome tipicamente “eduquês”, veio confirmar o que já se esperava. Só no pré-escolar e no 1. °dclo do básico há uma taxa de escolarização de 100 por cento. Mas dali em diante e até ao 120 ano as taxas de escolarização desceram ou “estagnaram e as taxas de retenção (ou seja, de “chumbo”) e de abandono aumentaram. Isto é, enquanto o eng. Sócrates continua a perorar sobre a mão-de-obra qualificada que não existe e o eng. Mariano Gago sonha com ciência e tecnologia, desde 1994/95 que o país se educa cada vez pior e cada vez menos. Para dar um exemplo, os jovens entre 20 e 24 anos que hoje conseguem acabar o 12. ano não chegam a 50 por cento. Aqui também a “Europa” irremediavelmente se afasta. A ministra não sabe o que fazer e os peritos, como de costume, condenam o ministério e recomendam mezinhas: o “rigor”, a descentralização, a responsabilidade da família e por aí fora. Não parece ocorrer a ninguém que não existe um mercado para os produtos que a escola e a universidade oferecem. Mesmo “educada” (na prática, muito mal “educada”), onde iria encontrar emprego a enorme massa que de 1980/ 85 para cá se deslocou ou foi expulsa da agricultura e de uma indústria arcaica e condenada? Não se criou uma indústria, por assim dizer, moderna, em lugar da velha: e a primitividade da maioria dos serviços (como o turismo) não exige, como é óbvio, grande “estudo”. A escola e a universidade deixaram de ser o meio por excelência de ascensão social ou Simplesmente de ganhar dinheiro. Nem alunos, nem pais lhe reconhecem qualquer valor. Tiraram as conclusões que se impunham de milhares de infelizes com o secundário completo (e 40.000 licenciados) sem emprego ou saída. Os governos podem viver na fantasia, os portugueses não podem. Ficou o Estado. E o Estado, seguindo uma tradição venerável, empregou toda a gente até à sua própria falência. A administração e as câmaras deste país perdido receberam os destroços da política “educativa” da democracia. Só que esse último recurso agora (temporariamente) acabou ou ficou muito reduzido. A decadência da educação vai continuar, porque a confiança na educação vai diminuir e diminuir mais depressa. Mas com certeza que isso não irá perturbar o eng. Sócrates na sua nuvem.

Público

03-02-2007

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