Joseph Ratzinger

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José Pacheco Pereira / Abrupto / in Público

Olhando para 2006 com os olhos do fim do ano, pequena convenção do tempo, há uma figura intelectual que emerge da Europa, onde hoje elas não abundam: Joseph Ratzinger, o actual Papa Bento XVI. Não é tanto o Papa que me interessa em primeiro lugar, nem são motivos religiosos que me levam a destacar Ratzinger, mas sim o seu papel como intelectual na feitura da Europa como nós a conhecemos e do “Ocidente” como nós já não o conhecemos. Este tipo de aproximação a Ratzinger é provavelmente uma das que mais lhe desagradará, após uma vida a combater uma visão que considerará relativista e positivista e que acaba inevitavelmente por minimizar, na sua análise, o homem de fé que o padre, bispo, cardeal e agora Papa é sem dúvida. Ele próprio resumiu algumas das suas recusas em tomar determinadas posições com a afirmação definitiva: “Se o fizesse, não seria capaz de afirmar o Credo.” Neste sítio, onde eu paro, começa Ratzinger.

Pope Benedict XVI: A Biography of Joseph Ratzinger. A biografia de Ratzinger de John L. Allen, um jornalista do National Catholic Reporter e “especialista do Vaticano” na CNN, é um excepcional trabalho jornalístico. Escrita ainda sobre Ratzinger e não sobre Bento XVI, mostra o papel crucial que teve em moldar a Igreja católica no pontificado de João Paulo II e o vigor das suas polémicas com outros teólogos, assim como a controvérsia contínua, na Igreja e fora dela, sobre as suas posições. Sendo um livro de jornalista, interessado mais pelo confronto de posições e opiniões, do que pela obra doutrinária de Ratzinger, mostra um profundo e rigoroso conhecimento dos pontos de teologia, doutrina e tradição envolvidos. É o livro obrigatório sobre este aspecto da personalidade e carreira de Ratzinger, central na sua vida pessoal e espiritual. 

Como intelectual, Ratzinger tem um percurso que pode ser comparado com outros intelectuais europeus do seu tempo e há nele, descontada a vertente mais estritamente teológica, uma comunidade de temas muito próxima, por exemplo, da de George Steiner. O facto de Ratzinger ter desenvolvido a sua actuação essencialmente dentro de um nicho ecológico muito particular, a Igreja católica, obscureceu o seu papel de intelectual propriamente dito, sem por isso deixar de ter na história recente uma importância pouco comparável, porque maior, com a de muitos outros intelectuais com uma “cobertura” mais laica, mais mediática, logo mais próxima do “século”. A razão pela qual Ratzinger se tornou mais importante nos dias de hoje, embora a sua influência tenha sido já muita nas últimas duas décadas, tem a ver com um efeito de procura de identidade, que o actual conflito cultural e civilizacional reforçou na Europa. Os textos de Ratzinger, os seus temas e o seu posicionamento, tornaram-se mais centrais nas preocupações culturais, intelectuais e políticas dos dias de hoje, concorde-se ou não com eles.

O discurso proferido em Ratisbona foi distinguido com o prémio “Discurso do ano” pelo Departamento de Retórica da Universidade de Tubingen, um dos mais prestigiados da Alemanha. (Informação de Miguel Alves.) 

Bento XVI não é um Papa como os outros, não chegou ao lugar de Pedro apenas pela sua actuação pastoral, nem sequer pela ascensão dentro da Cúria romana, mas através do seu papel como teólogo, autor de múltiplos livros e artigos académicos na sua área de especialidade, discursos, entrevistas e debates. No mundo cultural do centro da Europa e nos EUA os seus trabalhos são muito conhecidos, partilhando com outros teólogos como Urs von Balthasar, Kung e Barth o lugar cimeiro de uma disciplina não só religiosa, quando o é, mas também académica, ligada em particular à filosofia.

Para além disso, Ratzinger exerceu durante um período crucial da história recente da Igreja uma outra função típica de um intelectual, a de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a instituição sucessora na Igreja católica, do Santo Ofício, da Inquisição. Como defensor da ortodoxia, o que significa também construtor da ortodoxia, Ratzinger oferece um exemplo de uma tradição puramente intelectual, mais próxima do intelectual “orgânico” gramsciano do que do intelectual ao modelo do Zola do J’Accuse, mais conforme com a nossa tradição afrancesada. A formulação da ortodoxia doutrinária é uma tarefa que contém elementos punitivos, mesmos nos nossos dias, a começar pela retirada da autorização a um teólogo da missio canonica que o impede de ensinar nas cátedras universitárias que dependem da aprovação da Igreja, como acontece com muitas universidades alemãs onde os departamentos de Teologia católica exigem essa autorização. Hans Kung foi uma das vítimas desta situação.

A obra de Kung sobre a Igreja católica fornece uma visão alternativa em muitos pontos às posições de Ratzinger, revelando como a interpretação doutrinária seguindo diferentes tradições filosóficas, entre Agostinho e Tomás de Aquino, pode conduzir a resultados muito distintos no entendimento da Igreja, e da sua relação com a sociedade. Kung insiste no carácter da Igreja como construção temporal, em que muitas das opções – os mecanismos de autoridade e hierarquia, o afastamento das mulheres do sacerdócio, a natureza do “apostolado”, a infalibilidade papal, etc. – resultam não da Revelação, mas sim da história. Kung lamenta a posteriori o papel do helenismo em que mergulhou o cristianismo primitivo, enquanto muitas das concepções de Ratzinger valorizam uma “prioridade ontologógica” da Igreja sobre a “igreja” tal como ela é. Ver sobre este aspecto um artigo de Ratzinger (em inglês) The Ecclesiology of the Constitution on the Church, Vatican II, “Lumen Gentium” e o texto “platónico” da Congregação da Doutrina da Fé, dirigido aos bispos “sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão”. 

O mesmo aconteceu com outras formas de punição, como a obrigação de silêncio, a retratação pública, a retirada do imprimatur a livros publicados e outras. Ratzinger foi o inquisidor, mas não foi o grande inquisidor com que muitos hoje o classificam. Na verdade, a maioria das posições doutrinais que teve que defender eram há 50 anos consideradas tão fundamentais para a fé católica que ninguém pensaria contestá-las e permanecer católico.

Neste duplo sentido da sua acção intelectual, Ratzinger acompanha muito proximamente os tempos, mesmo que a partir de uma dada altura o faça em contraciclo, contra as tendências do “século”. É exactamente este contraciclo que o torna interessante na procura de identidade europeia que começou com a crise do comunismo e depois da União Europeia e se acentuou face ao crescente número de conflitos com o islão fundamentalista e a aparição de uma Europa na qual religiões não cristãs e uma alteridade cultural mais agressiva começam a assumir um peso significativo. A Igreja católica foi uma das construtoras da Europa e do “Ocidente”, e, mesmo com todas as ambiguidades da sua história e sem pôr em causa as sociedades “descrentes” dos nossos dias, é natural que aquilo que era um pensamento fora do mainstream europeu começasse a migrar de novo para um centro onde sempre esteve. O interesse por Ratzinger vem daí, mesmo pelo Ratzinger inquisidor.

Uma anedota corrente sobre Ratzinger, o “Cardeal Panzer”, como lhe chamam alguns dos seus críticos, envolve os três teólogos: Ratzinger, Hans Kung e Karl Barth. Viajavam no mesmo avião para a o Vaticano. O avião caiu e todos apareceram diante de S. Pedro (há uma versão com Cristo no lugar de S. Pedro). S. Pedro sai do seu gabinete e chama Karl Barth; “vem aqui…”. Durante uma hora, ouvem-se gritos e barulho e depois Barth sai a chorar dizendo: “Ó, como é que eu pude cometer tal erro de doutrina!”. A seguir vai Kung e durante cinco horas ouvem-se gritos e coisas a partirem-se, até que sai dizendo: “Ó, como é que eu pude ser tão tonto!”. Chega a vez de Ratzinger. Oito horas de reunião, silêncio. Então a porta abre-se e sai S. Pedro a chorar como um bebé, dizendo: “Como é que eu pude ter sido tão enganado!” 

No início da sua carreira, como peritus dos cardeais alemães no Vaticano II, Ratzinger distinguiu-se como um progressista que apoiou muitas das medidas inovadoras do Concílio. Nos seus comentários aos documentos do Concílio, alguns dos quais ajudou a escrever nos bastidores, foi claro na defesa de uma renovação da Igreja, mas rapidamente foi aumentando as reservas sobre os efeitos que as inovações conciliares traziam ao catolicismo e passou de reformador a conservador. Os eventos de Maio de 1968, que viveu directamente na universidade alemã, assim como o crescimento da “teologia da libertação” na América Latina, levaram-no para um caminho de muito maior prudência e acabaram por o tornar no principal opositor dentro da Igreja à multiplicidade de inovações teológicas, litúrgicas e eclesiais que pulularam a partir da década de 70. Aumentando a sua influência no pontificado de João Paulo II, de que era o alter ego doutrinário, Ratzinger acabou por ser a voz da ortodoxia em todas as questões “fracturantes” da Igreja: papel da mulher no sacerdócio, moral sexual, “democracia” ao modelo oriental dos sínodos versus autoridade da Cúria Romana, infalibilidade papal, diálogo inter-religioso, relações com as sociedades laicas do Ocidente.

Ao pensar sobre todas estas matérias, Ratzinger deixou escritos sobre questões morais, religiosas, teológicas, filosóficas, culturais, que, independentemente da crença religiosa de cada um, suscitam problemas muito actuais da acção política, ancoradas em velhas tradições intelectuais europeias. Por exemplo, na sua condenação da “teologia da libertação”, nos seus textos contra Leonardo Boff e outros teólogos sul-americanos, Ratzinger travou a dissolução de um acervo doutrinal mais vasto do que a instituição da Igreja em si, que na realidade punha em causa a dignidade da pessoa humana, e a correlativa responsabilidade individual, substituindo-a por uma culpabilidade social baseada numa versão abastardada do marxismo e na apologia da violência. Ratzinger, que achava que os teólogos da libertação tinham “lido teologia alemã a mais”, referindo-se a colegas e discípulos seus cujas posições tinham influenciado os latino-americanos, atacou doutrinariamente com veemência os seus defensores não só em pontos de política, como de filosofia e teologia.

Ao se lerem esses textos hoje, à luz do fim do comunismo e do que se sabe das experiências latino-americanas, percebe-se a razão de Ratzinger e a solidez do seu corpo doutrinário.

O Público a 24 de Dezembro publicou uma entrevsita de António Marujo a Johann Baptist Metz, um dos teólogos alemães que influenciaram a “teologia da libertação” que refere o papel da sua experiência da guerra e do Holocausto como fonte para a sua teologia política: A questão da teodiceia e a sensibilidade da teologia para esse aspecto tornaram-se importantes para mim. Quando o cristianismo se torna teologia, mudamos esta questão sobre a teodiceia, que era a pergunta principal – acerca da justiça de Deus perante os seres humanos que sofrem injustamente. O que define a tradição bíblica, desde o início, é a justiça para os que sofrem injustamente – que foi transformada na reconciliação dos pecadores. (…) O que sempre enfatizei na minha teologia foi: não esqueçamos este grito por justiça. Não apenas um grito político, mas o grito bíblico, já do Antigo Testamento, que regressa com experiências de catástrofes como a de Auschwitz. Este foi um dos temas que nunca abandonei na minha teologia.

 Escreve que o olhar de Jesus é para os sofredores e não para os pecadores…

  É também para os pecadores, mas a primeira perspectiva messiânica foi sempre a dos sofredores. Esta era a primeira visão de Cristo. Nós mudámos o cristianismo de uma religião basicamente sensível ao sofrimento dos outros para uma religião sensível aos culpados e aos pecadores.

Os cristãos esqueceram o sofrimento dos outros?

  Sim. Melhor: claro que nunca esquecemos essa ideia, mas o cristianismo concreto e a sua história, pelo menos como o entendo, atiraram essa dimensão para as traseiras. Eu pretendo trazê-la de novo [ao de cima], precisamente no confronto da actual situação do cristianismo com o mundo globalizado.

(Continua.)

(No Público de 28 de dezembro de 2006)

 

               JOSEPH RATZINGER, A IGREJA E O MUNDO 

 ABRUPTO de 2007-01-11 

Os textos de Joseph Ratzinger escritos como teólogo e homem da Igreja antes da sua escolha para Papa, deixando de parte os mais técnicos, centram-se em meia dúzia de temas recorrentes bastante virados para a relação da Igreja com o “mundo”, com a história, com os sistemas de valores circulantes, a interpretação das características da sociedade moderna, e as relações entre a fé, a ciência, a arte e a ética, a guerra e a paz, o legado da antiguidade clássica e o papel da Igreja na construção europeia. Ratzinger é autor de um número significativo de livros, artigos, conferências, intervenções, entrevistas, quer no mundo académico, quer em grandes órgãos de comunicação social, a que não falta um ânimo de polémica, uma vontade de discutir pouco comum na discrição habitual dos círculos mais elevados da Igreja.

Ratzinger está há muito tempo presente na edição portuguesa, embora as suas obras fossem pouco conhecidas fora dos círculos ligados à Igreja e à teologia, em contraste com a presença muito activa na comunicação social centro-europeia e americana. Antes da sua escolha como Papa, estavam publicados desde os anos oitenta vários dos seus textos como Diálogos sobre a fé, A Igreja e a nova Europa, Introdução ao espírito da Liturgia, João Paulo II: vinte e dois anos na história com Fátima presente, Questões sobre a Igreja, O sal da terra: o cristianismo e a Igreja Católica no limiar do terceiro milénio, etc. Depois de ser Bento XVI assistiu-se à saída de muitos outros textos e à reedição de alguns. A Introdução ao Cristianismo é o mais interessante dos textos recentemente publicados.  Existe igualmente em Português uma espécie de guia turístico sobre a Baviera de Ratzinger, que mostra os locais desse catolicismo bávaro muito especial, um dos poucos focos de resistência (ténue, mas real) ao domínio absoluto do nazismo e que ajuda a perceber o Papa no seu contexto alemão. Na Biblioteca Nacional há um número surpreendente de obras teológicas de Ratzinger em alemão e noutras línguas europeia, o que, tendo-se em conta as dificuldades de aquisição de livro estrangeiros pela Biblioteca, revela que alguém teve um interesse especial pelas obras do então padre e depois cardeal alemão.Ele próprio reconhece que não é tarefa fácil para “quem tenta anunciar a fé no meio de pessoas envolvidas na vida e no pensamento hodiernos pode sentir-se (…) como alguém que se levantou de um sarcófago antigo e se apresenta ao mundo de hoje com os trajes e pensamento de antigamente, sendo incapaz de compreender este mundo e de ser compreendido por ele”, retratando-se a si próprio como o palhaço de Kierkegaard, que corre a avisar a aldeia que o fogo que começou no circo a vai atingir, e em quem ninguém acredita pelas suas roupas ridículas. 

A história de Kierkegaard está no seu livro Enten-Eller (que conheço traduzido em inglês como Either/Or). Aqueles a quem o palhaço queria avisar aplaudiam-no pensando que era mais um número de circo. O texto de Keirkegaard era ainda mais sombrio na sua conclusão (cito da versão inglesa):

It happened that a fire broke out backstage in a theater. The clown came out to inform the public. They thought it was just a jest and applauded. he repeated his warning, they shouted even louder. So I think the world will come to an end amid general applause from all the wits, who believe that it is a joke. 

Ratzinger expressa esse sentimento da dificuldade, quase inutilidade, do seu discurso. Há momentos em que se percebe um certo cansaço, suportando um outro “cansaço da Igreja” que ele próprio diagnosticou. Mas a sua escolha como Papa mostra que o tempo em que resistiu a contraciclo ao “catolicismo progressista”, à “teologia da libertação” e a um conjunto de propostas teológicas, eclesiais e litúrgicas de “abertura” da Igreja ao mundo que, no seu entender, a descaracterizavam, o tornou menos “como alguém que se levantou de um sarcófago antigo”, mas sim como alguém que merece ser escutado, até porque nos anuncia o risco de um incêndio. Foi o que lhe aconteceu no discurso de Ratisbona, presumo até que com alguma surpresa própria.

É aqui que a obra intelectual de Ratzinger é interessante porque, sendo ele conservador, é essa espécie especial de conservador que, tendo sido “progressista”, mudou por um movimento da reflexão e experiência individual que acompanhou a história recente da Igreja, depois do Concílio Vaticano II. Por isso é conservador, sem ser reaccionário, e, sem aceitar nem se submeter ao ruído do “mundo”, não se volta contra ele negando-o. Como teólogo, combateu sempre a dissolução da identidade cristã e católica no “século”, esforçando-se por o compreender, sem aceitar o seu império, e sem “secularizar” a Igreja. Ratzinger demarca-se da Igreja reaccionária do século XIX e grande parte do século XX que combateu a ciência, defendeu a monarquia absoluta, que combateu a industrialização, a democracia, o liberalismo, político e económico, como fizeram muitos papas nos últimos 200 anos.

Ratzinger valoriza o facto do Concílio Vaticano II “ter coragem de falar não apenas na Igreja santa, mas também da Igreja pecadora” e lembrou que “os séculos da história da Igreja estão taõ cheios de todos o tipo de falhas humanas que até podemos compreender a visão horrenda de Dante que viu sentada no carro da Igreja a meretriz de Babilónia”…Não é esse combate de reacção e negação que o conservador Ratzinger continua, mas sim o de um outro tipo de resistência ao relativismo cómodo, à perda de identidade e de valores sociais, à perda da história e da memória civilizacional, usando a linguagem da filosofia, da história e da cultura contemporâneas. 

Ao envolver a Igreja nesse debate em termos que podemos considerar, para além da fé, como fazendo parte da nossa linguagem civilizacional comum, Ratzinger dá uma contribuição intelectual, mesmo quando a faz como um testemunho de fé. E é exactamente porque é entendida como um testemunho da fé – alguns dos seus mais interessantes textos são análises do Credo – que nos comunicam alguma coisa, porque se fundam na convicção da Igreja como uma construção divina. Ao ajudar a dar solidez à “pedra” de Pedro, Ratzinger reforça também um dos nossos alicerces civilizacionais, porque essa “pedra” não sustenta apenas o Vaticano, nem a Cúria, nem a Igreja, mas também o nosso mundo.

Por tudo isto não nos são indiferentes as suas posições e polémicas sobre o papel da Igreja, porque também delas depende o modo como o corpo da Igreja, do Papa aos fiéis, entende a instituição de que faz parte e o corpo de “saberes” que transporta. Se colocarmos em confronto dois teólogos católicos de relevo no século XX, Ratzinger e Hans Kung, verificamos como as respostas que dão ao posicionamento da Igreja têm efeitos no “mundo” muito distintos.

As propostas de Kung encontram-se resumidas nas conclusões do seu livro sobre a Igreja católica, significativamente intituladas “que Igreja terá futuro?” Kung, um padre católico e um dos mais importantes teólogos do século XX, tem um percurso paralelo com o de Ratzinger sem ter no entanto ascendido na hierarquia. Desde a fase final do Concílio Vaticano II, que considera ter sido traído no seu impulso de “reforma”, entrou em conflito com a ortodoxia vaticana e viu a sua missio canonica, que lhe permitia ensinar na catedra de Tubingem como “teólogo católico”, ser retirada em 1979. Nas suas memórias, relata com humor, a sua chamada ao Santo Ofício e o encontro com o grande inquisidor, o cardeal Ottaviani, assim como as suas relações com Paulo VI. O Papa pediu-lhe um “sinal” e Kung não o deu. De forma sibilina nas memórias anota que foi isso que o distinguiu de Ratzinger. 

Se a Igreja Católica, em nome de um reforço do seu sucesso temporal se tornasse numa instituição multicultural e “inter-religiosa”, com fronteiras indefinidas, como aconteceria se as propostas de Hans Kung e de outros teólogos “liberais” e anti-Papado fossem para a frente, rapidamente se dissolveria no “mundo” como mais uma entidade religiosa, sem centro e direcção e certamente sem magisterium reconhecido. Um dos aspectos que mais fragilizam o islão e mais o impedem de se modernizar é a ausência de vozes interpretativas autorizadas. Num certo sentido, e com excepção do xiismo, no islão não há nem Igreja, nem magisterium, e isso contribui para fixar uma interpretação literal do Alcorão, e das suas componentes jurídicas e societais, como a sharia, nos tempos medievais. A Igreja Católica foi capaz de manter um equilíbrio entre o que considera “revelação” e o “mundo” que lhe permitiu sobreviver como instituição global num mundo fortemente laicizado, porque tinha uma autoridade central que interpretava e uma hierarquia que levava a autoridade dessa interpretação aos fiéis.

Como laico, eu valorizo o magisterium da Igreja, mesmo quando dele discordo na sociedade e na política. Prefiro uma Igreja institucional e conservadora a mais um “movimento” com fronteiras indefinidas, mesmo que fundado numa fé genuína dos seus crentes. Penso que sem magisterium a Igreja verdadeiramente nunca seria capaz de mudar e que é pelo magisterium que muda. Um retorno à Igreja comunitária primitiva, a negação do papel do Papa e uma recusa da Igreja hierarquizada trariam ainda mais confusão e um maior deslaçamento da sociedade. A oposição de Ratzinger a estas teses e a Igreja que agora como Papa tem autoridade para ajudar a construir pode não chegar para evitar o velho fantasma que nos ronda as casas, o da “decadência do Ocidente”, mas ajuda a esconjurá-lo.

Compreendo que dentro da Igreja, muita da resistência ao “século” pareça empobrecedora para os católicos – por exemplo, a recusa da ordenação das mulheres, ou as posições da Humanae Vitae sobre a contracepção – mas, para “fora”, uma Igreja que mude só com solidez e prudência, que afirme um sistema de valores que comunica com outros valores sociais e os reforça é fundamental. Nos dias de hoje, os aspectos mais socialmente negativos das posições da Igreja (sobre moral sexual, por exemplo) parecem-me de todo circunstanciais e, a prazo, acabarão por mudar, mas é essencial que essa mudança se faça sem pôr em causa a autoridade da Igreja enquanto presença moral e espiritual. Pode parecer contraditório desejar ao mesmo tempo mudanças e prudência, mas não é.

Sem a Igreja cristã, seja a “apostólica romana”, sejam as igrejas ortodoxas, luteranas, protestantes e a anglicana, o teor do debate “moral” na nossa sociedade seria certamente muito menor. Como tudo puxa para que ele seja pouco e tenda ainda a ser mais escasso, precisamos dessa face da nossa identidade, mesmo que para muitos essa seja uma identidade nostálgica e perdida. Perdida ou actual, ela está lá.

O caso do aborto é típico. Ao resistir à introdução de legislação que permite a interrupção voluntária da gravidez em nome de uma cultura da “vida” face à “morte”, a Igreja não muda a minha opinião (o meu “sim”) mas obriga-me pela sua resistência e pelos seus argumentos, com relevo para os que traduzem posições éticas, a discutir a “vida” e aquilo que se tem nomeado como a “cultura da morte”, o que eu posso – e devo – fazer num contexto laico. E posso e devo fazê-lo, porque há valores envolvidos na decisão de abortar que transcendem os argumentos correntes a favor do “sim” e levantam dilemas morais genuínos . Do mesmo modo se espera que os defensores do “não” considerem existir outro tipo de dilemas morais tão genuínos como os suscitados pela questão da “vida”. Uma gravidez não desejada, – e pode ser não desejada por inúmeros motivos – , é também profundamente perturbadora (pode também “matar” em vida) e suscita questões morais que não são menores àquelas que se levantam à volta da “vida”. Reconhecer uma idêntica valoração moral quer aos motivos da decisão do “sim” quer do “não”, é o único ponto de partida para um debate sério e não relativista. 

Para o “mundo”, faz mais falta uma Igreja sólida, lenta e prudente, ou seja conservadora, do que uma Igreja “progressista”. Para “progressismo” e “politicamente correcto”, já temos que chegue. Para além disso, marxistas e “progressistas” fazem muito melhor “progressismo” do que faz a Igreja. Este é também o sentido da obra teórica de Ratzinger.

(No Público de 11 de Janeiro, aqui anotado.)

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