A SOLIDÃO DOS GUERREIROS

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A gente é feita pelas nossas conversas. Conversas que nunca se esquecem, conversas que ficam e ficam e ficam, mudando, dizendo coisas diferentes em tempos diferentes. Mas ficam, lá atrás de qualquer coisa que somos. Recordo-me nestes dias de ferro e fogo no Médio Oriente de uma que tive com a mais improvável pessoa para lembrar neste contexto: Jonas Savimbi. Ou talvez não.A Jamba, quartel operacional de Savimbi no Sul de Angola, quando se tornou na sua sala de visitas, caiu no mesmo logro de que era em parte: o logro da propaganda para ocidentais desejosos de exotismo e de um pouco de aventura. Savimbi aprendera com os chineses, que por sua vez tinham aprendido com os soviéticos a arte das aldeias Potemkine, a arte da “massagem do ego”, a arte de iludir. Nas “excursões” à Jamba como lhe chamavam os seus detractores, tudo era cuidadosamente pensado para responder às ilusões, obtendo efeitos de propaganda, mas havia outra Jamba por detrás da que era mostrada e essa era bem menos amável e bem menos utópica. Numa viagem que lá fiz, pude ver e ser sujeito a todas estas artes da ilusão e da propaganda, mas sem querer gabar-me de qualquer omnisciência ou cinismo militante, nem por isso deixava de saber que havia muito cenário.

Mas havia uma coisa na Jamba de natureza diferente do seu “sinaleiro”, das suas aulas de Latim, da sua fanfarra marcial, e essa coisa era Jonas Savimbi ele mesmo, personagem maior que a vida, maior que a morte, personagem da história, cruel, obsessivo, tenebroso, mas uma “carácter”. Fiel aos mitos que alimentava, um dos quais era de que não dormia, encontrei-o uma vez às três da manhã. O local era uma cabana de madeira e colmo, com umas cadeiras de plástico e uma improvável cortina florida daquelas que se encontram nos quartos de banho suburbanos. Era mesmo uma cortina, triste e pobre, o improvável cenário dos homens que rodeavam Savimbi, todos hoje já fantasmas no Inferno.

Era uma noite de crise, havia combates em Mavinga, e Magnus Malan tinha feito declarações incómodas para Savimbi, pelo que as relações com os aliados sul-africanos não deviam estar pelo melhor dos mundos. A guerra corria-lhe bem, talvez fosse isso que levou os sul-africanos a reivindicar o seu papel, o que atrapalhava a propaganda da UNITA. Talvez por isso, a meio da conversa e sem qualquer necessidade, Savimbi começou um longo monólogo, meio interior, meio para eu ouvir, muito longe do que se podia esperar pela ocasião e pelo interlocutor português. Savimbi começou a falar da solidão na luta. Disse-me: “Agora tenho todos comigo, os sul-africanos, os americanos, mas sei que isso não pode durar.” “Já vi todos os meus aliados deixarem-me sozinhos, já vi os americanos com a síndrome do pós-Vietname, a abandonar os seus amigos… Quando fiz a minha “Longa Marcha” , até comemos cascas de árvore e chegámos à Jamba meia dúzia de homens para começar tudo de novo.” E insistia: “Agora tenho amigos, mas sei que posso ficar outra vez sozinho, só posso contar comigo e com os meus maninhos…” Havia um tom de tristeza e de resignação, pouco habitual em Savimbi, que não era dado a ter estados de alma.

Ele sentia-se ofendido pelos sul-africanos, este era o motivo próximo, e Savimbi era orgulhoso. Mas ele tinha uma premonição sobre o que se iria passar, muitos anos depois, a sua morte em combate, sozinho, abandonado, apenas com meia dúzia de fieis irredutíveis muitos dos quais morreram com ele. Ele era uma raridade para um líder africano, não tinha atracção pela vida faustosa no exílio dourado, não era corrupto, embora corrompesse, e toda a vida foi um general da frente de batalha, que liderava do chão perto dos seus homens. Era perigoso como poucos e sabia muito.

Recordo-me desta conversa nocturna, quando vejo mais uma vez o modo como os israelitas são deixados sozinhos para se defenderem, o que eles só podem fazer atacando (olhe-se para um mapa de Israel para se perceber), perante uma opinião pública e publicada que também ela, como os sul-africanos e americanos a Savimbi, os abandonou. Israel não é defensável em termos de um conflito clássico, e só com muito saber de experiência feita consegue conter em termos aceitáveis o terrorismo de que é vítima. À sua volta só tem inimigos, que não datam da “questão palestiniana” como muitos pensam, mas do dia seguinte à criação do Estado de Israel, quando este foi invadido por todos os exércitos dos países árabes. O mesmo cenário repetiu-se várias vezes, até que as ofensivas militares tradicionais, todas derrotadas, foram progressivamente substituídas por actos de terrorismo localizado, mas sistémico. Apesar de tudo, a situação de segurança de Israel melhorou, em grande parte porque a ocupação dos territórios da Cisjordânia e da Síria melhorou a sua capacidade de defesa, deu-lhe profundidade. A situação de Israel também melhorou, porque o “mundo árabe” se dividiu, alguns corajosos chefes de Estado no Egipto e na Jordânia aceitaram a realidade do seu Estado e o mesmo aconteceu com alguns palestinianos, a começar por dirigentes da OLP e da Fatah. Esse caminho foi positivo e é positivo.

Mas há uma realidade nova no Médio Oriente que pode inverter completamente a situação e fragilizar Israel e os seus amigos árabes, de novo: a combinação do fundamentalismo islâmico com a nuclearização do Irão. O Irão e a Síria são hoje a vanguarda de todos os que negam a pura existência de Israel, e o Hamas e o Hezbollah são os braços armados dessa nova realidade. Se somarmos a essa situação o caminho perigosíssimo do Irão, Israel tem hoje de novo um desequilíbrio que se está a construir à sua volta. O problema não são os palestinianos, é o choque de políticas nacionais de hegemonia regional, e a utilização da religião como arma de mobilização e radicalismo. Israel tem que conter o Irão, a Síria, o Hamas e o Hezbollah quanto antes, antes de terem armamento nuclear, antes de se armarem com as novas armas do terrorismo, incluindo uma capacidade maior de projecção de mísseis sobre o seu território sem profundidade. É uma realidade militar antes de ser política.

Os israelitas fazem certamente muitas asneiras, porque não são passivos mas pró-activos. Não assistem sentados à sua progressiva neutralização e destruição. Não podem deixar de o ser e é por isso que conservadores e trabalhistas, partidos religiosos e socialistas não diferem muito na legitimação da actuação militar. É mesmo uma questão de sobrevivência e a ideia de que se trata de “um conflito assimétrico” onde os “poderosos” esmagam os “fracos” é enganadora: há assimetrias de tamanho que são a favor dos aparentemente mais fracos.

Percebe-se o que os israelitas querem com esta resposta violenta aos actos de guerra do Hezbollah e do Hamas: mostrar que a paz só é possível se não houver qualquer transigência com os grupos que são os braços armados de estratégias de aniquilação do Estado de Israel. E estes, e os Estados que os alimentam, só percebem uma única linguagem, a da força. Israel também de há muito sabe que só pode haver paz com quem a deseja e, do mesmo modo que o Irão lhe quis enviar uma mensagem, Israel responde em espécie. É duro, mas naquele canto do mundo não há muito terreno para amabilidades, e, infelizmente, muita gente sofre de passagem. A expressão “danos colaterais” é cruel na sua frieza, mas verdadeira.

É face a esta situação que a comunidade internacional não cumpriu as suas obrigações. Fechou os olhos à presença de milícias sírio-iranianas no Sul do Líbano, não se dispôs a fornecer reais garantias a Israel da sua segurança, para poder exigir o fim da ocupação dos territórios palestinianos com razoabilidade e sem risco para Israel. O último passo para a paz, a retirada unilateral da Faixa de Gaza, não foi acompanhada pelas devidas pressões sobre o Hamas para que mude de política face a Israel.

Bem pelo contrário, a União Europeia, cuja política no Médio Oriente é claramente anti-israelita e por isso inútil para mediar qualquer coisa, continua a financiar a Autoridade Palestiniana controlada pelo Hamas. Os americanos dão uma última garantia de segurança a Israel, mas essa só funciona num ambiente de Armagedão, e a Bíblia e os seus apocalipses não são os melhores conselheiros. Até lá, e esperamos, sem necessidade de chegar lá (um conflito nuclear), Israel está sozinho e só pode contar consigo mesmo. Eles sabem muito bem disso, como Savimbi sabia. Ele perdeu tudo, os israelitas fazem tudo para que o mesmo não lhes aconteça.

Pacheco Pereira

(No Público de 20/7/2006)

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