Revista Visão – Opus Dei

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Quem são, o que pensam ou como se organizam em Portugal os membros da mais polémica e misteriosa organização católica? Será que os fiéis de Josemaría Balaguer, o 465.º santo canonizado por João Paulo II, constituem a elite da finança e da política?

 Filipe Fialho e Manuel Vilas Boas / VISÃO nº 508    28 Nov. 2002

Tudo começou com um «jeitinho» de Lúcia, a vidente de Fátima, quando se encontrava no Convento das Doroteias de Tuy, em Espanha. A antiga pastorinha incita o homem que recebeu «ordens divinas» para fundar também o Opus Dei em Portugal. Só que, em 1945, Josemaría Balaguer não tinha com ele o passaporte e era preciso que alguém abrisse as fronteiras ao pai da Obra de Deus (Opus Dei, em latim). A solução partiu do convento galego, com um visto caído do céu e Balaguer consegue, por fim, penetrar no nosso país, visitar Fátima e encontrar-se com altos dignitários da Igreja Católica, incluindo o cardeal Cerejeira. No ano seguinte, já tinha em Coimbra um seu compatriota farmacêutico, Francisco Martínez, hospedado no Hotel Avenida. A organização lançava os alicerces e abria a primeira casa na cidade dos estudantes, no n.º 30 da Rua António José de Almeida, baptizada de Montes Claros. É neste espaço que, meses mais tarde, o filósofo Mário Pacheco presta fidelidade à Opus Dei e se torna no primeiro português a aderir à Obra. Quase seis décadas depois, dois milhares de mulheres e homens encarregam-se de manter em Portugal a chama da organização desde sempre acusada de secretismo e menos colaborante com as instâncias do catolicismo oficial. Foi necessária a coragem do engenheiro Jardim Gonçalves, administrador do maior império financeiro privado, assumindo-se como membro da Obra em que entrou em 1975, quando era funcionário do Banco Popular Espanhol – onde chega por influência de um latifundiário de Montemor-o-Novo, primo de Álvaro Cunhal. Ao exemplo do presidente do BCP, seguiram-se figuras como Adelino Amaro da Costa, fundador do CDS e uma das vítimas de Camarate (que abandonou em litígio a Obra para se casar) ou João Bosco Mota Amaral, actual presidente da Assembleia da República. O mesmo fizeram figuras internacionais como Lech Walesa, antigo chefe de Estado da Polónia e ex-dirigente do Solidariedade, movimento sindical apoiado pela banca do Opus Dei, Giulio Andreotti, primeiro-ministro italiano em várias ocasiões, Louis Freeh, antigo director do FBI, Joaquín Navarro Valls, psiquiatra e porta-voz do Vaticano, Jacques Santer, ex-Presidente da Comissão Europeia, o espanhol Gil Robles, presidente do Parlamento Europeu entre 1994 e 1999, Juan Antonio Samaranch, ex-presidente do Comité Olímpico Internacional e o próprio monarca espanhol, Juan Carlos, teve como perceptor

Um membro do Opus Dei.

 Mas será que a Obra acolhe apenas gente ilustre, poderosa e com dinheiro? Os seus dirigentes respondem que os mais de 80 mil membros distribuídos pelos cinco continentes são a prova da diversidade de profissões e estatuto social dos filhos de Balaguer. E que não colhem as acusações de elitismo ou de estratégia destinada a penetrar nos centros de poder político, social e financeiro. Incluindo Portugal, onde os responsáveis evocam a presença da Obra em meios menos favorecidos e a lista de membros encerra taxistas, cozinheiras ou mulheres-a-dias.A nível eclesiástico, não é menos problemática a sua inserção no terreno católico. Desde o início da implantação do Opus Dei em Portugal. Seja pela desconfiança da hierarquia, seja pela dificuldade em fazerem-se aceitar junto da opinião pública e de penetrar em meios tão sensíveis como a Universidade Católica ou a administração de paróquias. E só dentro de alguns meses, a Obra poderá contar com a sua primeira paróquia, a criar na zona de Telheiras, em Lisboa. No Vaticano, a Obra viu consagrada em 2001 a sua pretensão de finalmente integrar o colégio cardinalício ao receber de João Paulo II o seu primeiro cardeal, Luis Cipriani, de Lima, Peru, terra natal de Gustavo Guttiérrez, actualmente nos dominicanos, fundador da teologia da libertação. Na Cúria Romana sobem de dia para dia, os infiltrados do Opus Dei, lobby que certamente irá condicionar as movimentações dos cardeais no próximo conclave para a eleição do novo Papa. Hoje, sabe-se que o polaco Karol Wojtyla deve o papado à estratégia conservadora dirigida pelo cardeal austríaco Koening, ainda vivo, simpatizante da Obra.

Os filhos de Balaguer

Não tem praticamente nuances nos diferentes países, a «máquina de santidade» concebida em 1928 pelo «comissário político de Deus», como chama ao fundador da Obra Ulrich Schwarz, jornalista da revista alemã Der Spiegel, de 30 de Setembro passado. Dando como inovadora e pré-conciliar a intervenção activa dos «cristãos correntes» no interior da Igreja Católica, dominada pelos eclesiásticos, Balaguer diz-se possuído de uma «inspiração divina» e funda em Madrid uma organização que tem como objectivo «ser o caminho de santificação no trabalho profissional e no cumprimento dos deveres quotidianos». Nada de original se verifica nesta «invenção» partilhada pelos movimentos nascentes de Acção Católica na Bélgica e na França – embora estes tivessem um cunho acentuadamente social. Por outro lado, ficava aberta a porta ao culto do êxito material e do reino do capitalismo liberal por onde se movimentam os integristas que haviam de assolar a igreja de Roma depois do Concílio Vaticano II. Segundo Escrivá, qualquer ser humano podia ser profissional da santidade, excepto as mulheres. Foram necessários dois anos para que o cura espanhol incluísse, em 1930, o sexo esquecido na candidatura aos altares. Não sendo uma ordem ou congregação religiosa, o Opus Dei é, durante vários anos, uma Pia União, depois o primeiro Instituto Secular de direito pontifício, antes de se tornar na almejada Prelatura Pessoal – uma diocese sem território, erigida em 1982 por João Paulo II. Balaguer vai impor aos seus sequazes obrigações semelhantes à tradicional vida monacal. É a clericalização da Obra, pretensamente feita por e para «cristãos correntes» – como os fiéis do Opus Dei se auto-intitulam. Aos votos de castidade, obediência e pobreza, a organização vai chamar «laços contratuais». Assim, aos designados membros supranumerários (98% do total de membros), homens ou mulheres, solteiros ou casados, de todas as condições sociais, a Obra impõe um «plano de vida» que, diariamente, obriga a meia hora de oração mental, de manhã e à noite, assistência à missa, visita ao Santíssimo Sacramento (sacrário sobre o altar onde se guardam as hóstias consagradas), leitura de textos bíblicos e de outros livros de espiritualidade, recitação do rosário (três terços), do Angelus (oração mariana do meio dia), diversas jaculatórias (interjeições religiosas como Santa Maria Mãe de Deus), e do exame de consciência à noite, onde se incluem perguntas sobre as preces da Obra e o espírito de proselitismo. É ainda obrigatória a confissão semanal, um dia de recolhimento em cada mês e um retiro espiritual todos os anos, com a duração de três a cinco dias. Estes últimos actos devem ser cumpridos no interior da obra e a confissão não pode ser feita a qualquer padre que não pertença à instituição. Também lhes é pedida a subvenção da Obra que passa pela entrega de quantias monetárias, em tudo semelhante ao dízimo.Benedita Santiago Neves, 38 anos, solteira, vive a paixão da sua vida no Opus Dei, organização à qual pretende ficar ligada para toda a vida, após ter contactado pelos 12 anos o Clube Darca, um centro de convívio opussiano no Campo Grande, em Lisboa. Mas os ensinamentos aí recolhidos em matéria de culinária e música acabariam por ser abafados pelo clamor da revolução de Abril e deu largas às suas contestações «claramente de esquerda mas sem partido». Hoje, não tem dúvidas: «Não consigo conceber defeito na Obra.» A residir em Cascais mas com escritório aberto em Lisboa, esta advogada não sente qualquer imposição da organização, onde entrou aos 31 anos por «decisão voluntária», na sequência da morte do pai, vítima de cancro: «Vi ali a presença de Deus.» Convicta de que pertence a uma entidade de «inspiração divina», esta supranumerária afirma, desassombradamente, que «reza e vai à missa» todos os dias porque quer e não é «mandada por ninguém». O mesmo se passa com uma outra jurista que descobriu, no início da década de 90, a sua verdadeira vocação: «Ajudar os outros, oferecer-lhes a minha amizade, rezar por eles, ajudá-los a chegar a Deus.» Para cumprir a preceito a sua missão, Paula Pimentel, 32 anos, criou com o marido – são ambos supranumerários – a Emergência Social (ES), uma organização que actua em bairros degradados no Alto do Lumiar, em Lisboa. No entanto, esta mãe de quatro crianças com idades entre os seis anos e os dois meses – Rodrigo, o mais novo, foi a Roma assistir às cerimónias de canonização de Josemaría Balaguer –, sublinha que a ES é uma iniciativa pessoal e não deve ser confundida com o Opus Dei. Embora as actividades desta instituição privada de solidariedade social, financiada pelo Comissariado Nacional de Luta Contra a Pobreza, se enquadrem nos ensinamentos da Igreja Católica e da Obra. Um bom exemplo é o acompanhamento que é dado a jovens grávidas, incentivando-as a não abortar. Aliás, a defesa da maternidade e da família constitui um dos pilares do trabalho desenvolvido por Paula Pimentel junto de aproximadamente 40 famílias desfavorecidas.

 Mortificações e flagelações

Os numerários e agregados são outra categoria de membros do Opus Dei, porventura os de mais difícil reprodução. Além de lhes serem feitas as mesmas exigências que aos supranumerários, conhecem imposições que os aproximam de figuras claustrais sem hábito: o celibato «apostólico», a permanência nos centros da Obra, e a mortificação corporal, que passa pelos tradicionais jejuns e abstinências e, aos sábados, pela autoflagelação e uso de cilícios – espécie de cinto áspero, de corda ou arame, aplicado sobre a pele. Não lhes é consentido celebrar com as famílias as festas do Natal, Páscoa e Ano Novo. Há uma vigilância sobre os quartos, a correspondência, e o acesso a espectáculos públicos. Todos os proventos – intelectuais ou outros – são entregues à Obra, que por sua vez lhes dá dinheiro do bolso para despesas mínimas. Os agregados não têm normalmente formação universitária nem vivem nas casas da Obra mas assumem os mesmos compromissos. Pedro Monteiro Gil, 37 anos, numerário, inscrito na ordem dos advogados, aceita estas práticas como «instrumento útil à vida dos cristãos». O director de informação do Opus Dei e ainda responsável pelo Centro de Formação para Universitários, em Lisboa, acredita pacificamente que há na Prelatura «um depósito com origem divina», onde «nem um jota foi acrescentado ao património deixado pelo fundador». Apesar de pertencer a uma família marcada pela Obra – o pai, uma irmã e um irmão (padre) são membros –, recusa que tenha sido por osmose que, aos 15 anos, quando frequentava o liceu Pedro Nunes, se tenha aproximado da organização. Fê-lo aos 21 anos como «decisão pessoal de viver a condição de baptizado no meio do mundo», tendo optado pelo «celibato apostólico» para estar mais «disponível para as tarefas formativas da Obra». A sobrevivência económica é-lhe assegurada pela Prelatura na casa-mãe, situada no Paço do Lumiar, em Lisboa. Mesmo com o exercício restringido da advocacia, Pedro Gil faz consultadoria numa fundação e dá apoio jurídico a uma unidade hoteleira. Já lá vão 11 anos sobre o dia em que fez o voto de fidelidade à instituição, declarando permanecer obediente ao Prelado, desempenhar todas as tarefas e a observar todas as normas da Obra enquanto numerário. Este voto repete-o todos os anos a 19 de Março, dia de S. José, um dos patronos da organização criada por Balaguer.Sobre esta decisão, Pedro Gil nunca teve «uma dúvida séria». Se tanto, «algumas insinuações e ideias fantasiosas». Cumpre, porém, com toda a normalidade, a obrigação de beijar o chão ao levantar-se como «acto de louvor e humildade». Quando se cruza com outros opus, lança a saudação pax (paz), ouvindo invariavelmente a resposta in aeternum (para sempre). Esta é a senha dos membros da Obra.Tarefa de cada semana, além das mortificações da carne, e da confissão, é o encontro – «a confidência» – com o director espiritual, papel atribuído a um leigo designado pela estrutura. Se for caso disso, é proposta a «correcção fraterna», punição ou acto de contrição exigidos pelo director espiritual. O «círculo breve», uma espécie de célula voltada para a formação – humana e espiritual – está sob a responsabilidade do director local. Estes são considerados os métodos de maior controlo das consciências no interior da Obra de Balaguer e que, de acordo com testemunhos de dissidentes, têm produzido maiores estragos no tecido mental dos membros. Carlos Azevedo, 49 anos, historiador e vice-reitor da Universidade Católica, julga que «o Opus Dei é procurado por personalidades inseguras que necesssitam de uma base estruturante de ideias».

 
Padres para consumo internoÉ dentro dos numerários e agregados do sexo masculino que são escolhidos pelo Prelado os padres da Obra e que pertencem à Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz, criada por Escrivá, em 1943. Foi o desfazer de um engulho de onde não estiveram ausentes extensas intrigas nos meios eclesiásticos, espanhóis e do Vaticano. A todos, excepto aos agregados, é exigido o doutoramento em ciências teológicas e civis e obediência exclusiva ao Prelado da Obra. Podem pertencer à Sociedade Sacerdotal padres associados diocesanos que desejem receber formação tipo opus. Esta é uma forma de difusão da Obra mas que não consente o contrário. Monsenhor António Barbosa, 67 anos, ex–vigário geral do Opus em Portugal revelou à VISÃO que, apesar de serem boas as relações entre a Prelatura e a Conferência Episcopal, nunca nenhum padre da Obra foi convidado a «pregar retiro» ao episcopado – fazer reflexões espirituais. D. Alberto Cosme do Amaral, bispo emérito de Leiria, foi, antes de receber o episcopado, o primeiro padre diocesano (hoje são pouco mais de uma centena) a associar-se às estruturas da organização em Portugal. O bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho, foi também sacerdote diocesano associado, revelando guardar «uma excelente recordação da densa espiritualidade» da Obra. São 27 os padres portugueses da Prelatura, cifrando-se a nível mundial nos 1 788 – segundo o Anuário Pontifício –, incluindo diáconos, figuras que a organização não recruta em Portugal. Dispersos pelos centros do Opus Dei, os padres fazem serviço de confissões e dão apoio aos tribunais diocesanos. São reconhecidos pelo clerygman (fato preto), onde sobressai um cabeção «volta branca» robusta e um corte de cabelo austero. O primeiro padre opus português é Hugo de Azevedo, 70 anos, ordenado em 1955, autor de várias publicações sobre o fundador e a Prelatura. E como Portugal é um país demasiado pequeno não é de estranhar que os mais de dois mil membros da Obra se conheçam ou existam laços de parentesco entre si. É o caso de Duarte Pinto, 40 anos, sobrinho de Hugo de Azevedo, e numerário desde 1983. «Cresci num ambiente onde sempre se deu grande importância à família – tenho nove irmãos – e aos ensinamentos do Santo Padre», refere este licenciado em arquitectura que é director de uma prestigiada instituição escolar controlada pelo Opus Dei, o Colégio Universitário Montes Claros, em Lisboa. Habituado a frequentar os meios da Obra desde a adolescência, confessa nunca se ter arrependido da sua opção e garante que nenhum dos estudantes a seu cargo tem de converter-se às virtudes do celibato: «O importante é que eles descubram a sua vocação. Alguns descobrem aqui a sua vocação matrimonial!» A maioria dos quase 70 residentes neste colégio masculino já tem namorada mas não se pense que os quartos ou as salas de estudo servem para outra coisa que não estudar. O edifício, localizado muito perto da Universidade Católica, reúne todos os requisitos para uma vida dedicada ao estudo mas existem contrapartidas. E embora o director diga que o Montes Claros «não tem de se assemelhar a um quartel», a verdade é que não existem contemplações para com os noctívagos: «De segunda a quinta as portas fecham-se às 23 e 30 e aos fins-de-semana à meia noite.» Os prevaricadores têm de apresentar justificação e os pais são sempre notificados da ocorrência. Afinal, o estudo é como o trabalho e implica sacrifícios e disciplina. As regras são simples e, como Josemaria Balaguer costumava dizer, cada caminhante segue o seu caminho…Estranhos cooperadoresO Opus Dei surpreende ao designar como cooperadores os homens e mulheres que não estando incorporados na Prelatura podem pertencer a diferentes confissões e religiões, designadamente protestantes, judeus, muçulmanos ou budistas… agnósticos e ateus. Não será entretanto fácil convencer quaisquer destes elementos a «propiciar à Prelatura amor com obras ao Papa e aos bispos». Mas são mais vastas as actividades dos cooperadores no campo educativo ou de promoção social e cultural. A ajuda económica que possa vir destes agentes é, segundo dados fornecidos pela Obra, retribuída em «indulgências» – como no tempo do protestante Martinho Lutero –, em orações, retiros e círculos. Em Portugal, Narana Coissoró, hindu, vice-presidente da Assembleia da República, possui este estatuto. Sua filha Smitá Coissoró, antiga jornalista do Tempo, conheceu o Opus Dei em Londres, numa residência para estudantes, de acordo com o depoimento por ela prestado a José Freire Antunes, autor do livro Opus Dei em Portugal. A página do Opus Dei na Internet envia regularmente informação sobre as actividades da Obra, sendo 57 mil o número de portugueses que recebem a newsletter elaborada pelos serviços de comunicação da organização no nosso país – embora os cooperadores sejam apenas 3 700. São estes que, de facto, colaboram nas actividades da obra e «espalham o espírito» da organização. Entre eles, estão Bagão Félix, os casais Eanes e Nogueira Pinto, Maria Barroso, Freitas do Amaral, Arlindo Cunha, Rui Machete e o jogador de futebol (lateral direito) Nelson, um dos campeões do mundo de sub-20, em 1991.Esquizofrenia religiosa?Ainda que negados o secretismo e a clandestinidade no espírito da lei, o codex iuris, toda a obra respira essa condicionante que toca o recrutamento (palavra banida) de novos membros. O primeiro centro para universitários a nível mundial, a academia DYA (Direito e Arquitectura ou Deus e Audácia para Balaguer), criada pelo fundador em Espanha, em 1933, serviu de mote à expansão da Obra dirigida preferencialmente aos meios académicos. E tudo começa com um simples convite para participar numa palestra ou numa conferência.Foi exactamente dessa forma que Messias José Bento, 67 anos, juiz, iniciaria o seu processo de integração no Opus Dei: «Pediram-me para ir falar sobre droga ao Clube Vega, no Porto, e eu aceitei porque tinha frequentado um seminário sobre o assunto na sede da Interpol, em França.» Este magistrado, era então – final da década de 60 – subdirector da Polícia Judiciária na capital nortenha e foi um seu subordinado na corporação, membro da Obra, o responsável pelo desafio. É que Messias José Bento, nome apropriado para alguém que nasceu no dia de Natal, vivia um período de «desleixo religioso» e sentiu que lhe «faltava qualquer coisa», só as idas à missa não o preenchiam. Após assistir a uma recolecção (tempo de reflexão, habitualmente de um dia), dirigida por um sacerdote da Obra, na igreja portuense de S. José das Taipas, tomou a decisão de mudar de vida: «Percebi que não havia incompatibilidade entre a profissão e a fé. Que o trabalho podia e devia ser agradável a Deus. E, para mim, isto era uma surpresa porque vivia o cristianismo de forma esquizofrénica.» A partir desse momento, a sua vida religiosa «deixou de ser um parênteses na vida profissional» e aceita a sua «vocação», tornando-se membro de pleno direito da Obra, em 1975, pouco tempo depois da morte de Josemaría Balaguer. Quanto às exigências da sua opção, compara-as às luvas de um cirurgião – «têm de se adaptar às mãos». Com ordem, disciplina e sacrifício demonstrou a si próprio que «só não tem tempo quem nada tem que fazer» e passou os últimos 27 anos a cumprir um rigoroso plano de vida. Em particular, o período em que esteve ao serviço do Tribunal Constitucional (TC), órgão de soberania do qual se jubilou recentemente. Durante quase duas décadas, de segunda a sexta-feira, trilhou a Linha do Norte vezes sem conta porque manteve a sua residência no Porto, levantando-se antes das seis da manhã para cumprir os seus deveres religiosos: «Às sete, assistia à missa na Igreja do Bonfim, perto da estação de Campanhã, ia depois a correr para o comboio e, na carruagem, fazia a minha oração, rezava o terço, fazia as minhas leituras…» Ao fim da tarde, o ritual cumpria-se no sentido inverso. Durante as viagens, Messias Bento aproveitava também o tempo para trabalhar nos dossiers que lhe tocavam em sorte como juiz-conselheiro do TC e alguns provocaram enorme controvérsia – como o divórcio ou o aborto. No entanto, recusa em absoluto a possibilidade das suas decisões e labor jurídicos alguma vez terem sido condicionados por ser membro do Opus Dei: «As polémicas nada tinham a ver com o facto de haver juízes que pertenciam à Obra, à maçonaria, ou a simpatias político-partidárias, mas sim com as nossas mundovidências. Existem algumas questões que dividem a sociedade e os juízes são emanações da sociedade!» Todavia, este supranumerário da organização fundada por Balaguer, sublinha a função pedagógica da ordem jurídica: «Não deve legislar moralidade mas deve acolher sentido ético, sob pena de deixar de cumprir o seu papel.»Mas nem só das elites trata o Opus Dei. A organização faz questão de sublinhar que acolhe gente de profissões correntes. «Confesso que dantes julgava que a Obra era um género de seita ligada à alta finança», diz José Tavares, 61 anos, supranumerário desde 1966. Seduzido pelos jogos de futebol promovidos por opussianos, este alfaiate nascido em Idanha-a–Nova não quis que lhe acontecesse o mesmo que a alguns jovens vindos da província – «a perda da fé e a crise da orientação familiar» – e identificou-se de imediato com os valores da Obra. Colabora na fundação da residência Novo Horizonte, onde se cruza com Adelino Amaro da Costa que aí dava explicações de Matemática. No entanto, jamais se deixou influenciar por qualquer formação partidária: «Nunca me senti constrangido a entrar ou a votar no CDS, aliás nunca me senti pressionado politicamente.» Ao que parece, José e a respectiva família – cinco filhos, todos católicos praticantes – discutem com abertura a moral cristã: «Nada de ser ortodoxos e inflexíveis.» Excepto em questões tão sensíveis como a interrupção voluntária da gravidez: «Nesse caso, relembramos o ensinamento da Madre Teresa “Não matem os filhos, entreguem-nos”». É timbre dos membros do Opus Dei cumprir escrupulosamente os ditames do Vaticano em matéria de doutrina e costumes. Seja quanto ao aborto, seja quanto ao proselitismo – o dever de passar a mensagem para além da família e dos círculos mais próximos. Afinal, estes «cristãos correntes» acreditam que toda a gente pode e deve ser convertida à santidade. «Antes, era necessário ser eremita», afirma o juiz Messias Bento. «Seria egoísta guardar a fé só para mim. Como diz o Concílio Vaticano II, todos os baptizados são chamados à santidade e ao apostolado.» E o magistrado reconhece tranquilamente ter contribuído para que algumas pessoas tivessem uma «vida religiosa menos intermitente»…
 
 

O «index» do Opus Dei

A canonização de Escrivá produziu uma das mais eficazes operações de marketing levadas a efeito sobretudo pela transmissão televisiva das cerimónias litúrgicas, realizadas no Vaticano, a 6 de Outubro. Mas a exposição mediática trouxe, por outro lado, a visibilidade das fragilidades. Amante mais do rigor do Direito Canónico que da investigação teológica – onde estão os teólogos de Balaguer? – o Opus Dei mantém o tom conservador da eclesiologia dos anos 30 e, em matéria de liberdade de pensamento e consciência, continua a guardar o Index abolido pelo Vaticano II. Entre outros nomes são lançados à fogueira opussiana, Lutero, Lessing, Kant, Hegel, Brecht e Hans Kung, cujas obras são consideradas «mero lixo» – evoca a revista Der Spiegel. Um escândalo, gritaram os críticos de San Josemaria quando contemplaram pendente da Basílica de S. Pedro a efígie do fundador do Opus Dei.

Não era um Escrivá qualquer

 Secretismo, latim e clandestinidade

Para que não se corresse o perigo de alguém plagiar as constituições da Obra, aprovadas por Roma em 1947, Alvaro del Portillo, número 2 de Balaguer, obtém autorização no Vaticano para que o texto completo fosse mantido sob sigilo nos arquivos secretos da Congregação dos Religiosos. E assim aconteceu até 1982, altura em que a Congregação dos Bispos publicou em latim um novo codex iuris da Prelatura. Aliás, foi a este texto que a VISÃO teve acesso e onde ainda é feito apelo à discrição por alegada humildade e para que os membros alcançassem «eficácia apostólica», abstendo-se por isso de «actos colectivos públicos nem que sejam actos devocionais como as procissões». Por incongruência, o texto pede aos membros que «não ocultem pertencer à Prelatura e evitem o secretismo e a clandestinidade». A Constituição de 1950 não pode ser mais explícita quando nos números 189 e 191 se afirmava que «o facto de ser membro da instituição não deve ser revelado, o número de membros deve permanecer secreto e os membros numerários e supranumerários deverão observar sempre um silêncio prudente no respeitante aos nomes de outros membros». Foram estes dados que modelaram os opussianos de todos os tempos e tornam perceptível a disparidade que se observa na contagem dos membros da Obra quando fornecidos quer pelo Anuário Pontifício quer pelos gabinetes de Informação do Opus.

Lx – 22 de Maio de 2006

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